Minicertezas

Sunday, May 21, 2006

Crimes do tédio

A primeira vez que soube sobre o boato foi justo ao ler, na internet, uma matéria que o desmentia. O texto da jornalista alertava o leitor para que não se deixasse assustar por e-mails urgentes, com seus pontos de exclamação e suas ordens em caixa alta para que fôssemos todos para casa. O crime organizado havia instaurado um toque de recolher à luz do dia. Hum-rum.

Lembro que li a reprodução do boato ligeiramente desapontado com a impossibilidade de acreditar. O texto era ruim. Mas não um ruim contextual, um ruim que dissimulasse pressa e medo, como convinha. Era um ruim exagerado, apelativo, desses que não escondem direito o desejo de manipular.

Mas tolo fui eu. Que menosprezei o desejo coletivo de se deixar enganar. Era segunda-feira à tarde, poxa. Todo mundo queria colaborar... E, assim, o tédio organizado cancelou os expedientes, interrompeu tudo que havia de inadiável e entupiu as ruas de carros. Diziam que era medo. Eu, que ainda não aprendi a brincar de adulto, nem me dei ao trabalho de me assustar. Sabe que até pensei em ir ao cinema?

Achei que seria alienação demais. Em minha defesa, preciso dizer que os noticiários e a ficção banalizaram as catástrofes. Era segunda-feira à tarde e, ah, um cineminha cairia tão bem. Quando teríamos essa oportunidade outra vez?

Não, não tive coragem de assumir meu hedonismo infanto-juvenil em plena guerra civil (naquela altura, todo exagero era permitido) e decidi que seria socialmente mais aceitável locar um filme, o que poderia ser feito com discrição. No mais, os cinemas também fechariam logo-logo.

Ao menos, eu compraria beirutes! Eu e meus mecanismos de autocompensação... De matar a fome eu tinha direito, certo? Só que, pertinho de casa, desisti também de passar na locadora. Foi acometido por aquela vergonha que de vez em quando a gente sente do que a gente mesmo vai pensar.

Mesmo imune ao pânico, achando aquela intensidade revigorante, não dava para ignorar o fato de que o pretexto daquilo tudo era sério e triste.

Consciência inútil: fui agraciado com um telejornal que era um filme de ação dos bons. Vi comendo beirute. Não me julgue: era uma forma de estocar calorias, vai. E a cidade inteira era minha cúmplice.


Presos rebelados podem ser muito perigosos; o tédio, também.

Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)

Tuesday, May 02, 2006

O tempo certo

Começou com uma dorzinha que ficou pior e me fez ficar no hospital uma tarde inteira. Duas vezes. Diagnóstico: gastrite nervosa. O médico disse que era de fundo emocional e, aí, mencionou a palavrinha mágica: ansiedade. Até então meus dias estavam uma loucura, cheios de prazos apertados no trabalho, textos da faculdade por ler, dúvidas de alunos para pesquisar, tudo acumulado na agenda - e na cabeça.

Foi então que passei a olhar de perto os pequenos detalhes do dia-a-dia. No ônibus, sofro porque o relógio corre contra mim. Na rua, os passos são quase uma marcha atlética. Escovo os dentes andando pela casa, ao mesmo tempo em que arrumo as almofadas do sofá ou dou uma olhada nos e-mails. Faço uma coisa já pensando na seguinte.

Sempre ele, o tempo, que corre mais do que a gente. As horas ameaçam faltar, prometem uma catástrofe todos os dias, mas no final ela nunca acontece. Parece mágica. Ufa!

Fico pensando se os compromissos nos provocam ansiedade ou se nós é que damos às tarefas uma aura de aflição. Naquela tarde que passei no hospital, ignorei todos os prazos do trabalho, não entreguei nada. Também faltei a aula em que decidiríamos os grupos de seminário. E para tudo eu dei um jeito depois. Se é assim, por que nos preocupamos tanto?

Parece bobo, mas o que fazemos desse jeito, aflitos pela pressão do tempo, são pedacinhos de morte. Lapsos - duradouros às vezes - em que perdemos a perspectiva de que se está vivendo enquanto o dia passa. Desvinculamos essas horas de nossa própria existência, paramos de sentir o que acontece em cada minuto e encaramos tudo como tarefas a cumprir para depois ficar livre. E vivemos dos minutinhos que sobram.

E nesta lista de obrigações diárias, transformamos o que nos dá prazer em mais um item a ser cumprido. Costumo ler os textos da faculdade em no máximo uma hora. Bem rapidinho antes de sair de casa. Um professor comentou que conhece uma pessoa que passou os últimos 14 anos lendo um único parágrafo. Ela tem mais tempo livre? Não. Só esqueceu essa história de tempo: esse tempo que a gente economiza ou gasta, que passa rápido ou demora a passar, esse tempo inventado pelo relógio. Adaptou-se como pôde, resistiu e aprendeu a viver sem ele.

Para mim, ainda não dá. Mas vou por partes. Meus dias continuam apertados, cheios de prazos e trabalhos, mas, a partir de agora, eles se acumulam só na agenda.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)