Crimes do tédio
A primeira vez que soube sobre o boato foi justo ao ler, na internet, uma matéria que o desmentia. O texto da jornalista alertava o leitor para que não se deixasse assustar por e-mails urgentes, com seus pontos de exclamação e suas ordens em caixa alta para que fôssemos todos para casa. O crime organizado havia instaurado um toque de recolher à luz do dia. Hum-rum.
Lembro que li a reprodução do boato ligeiramente desapontado com a impossibilidade de acreditar. O texto era ruim. Mas não um ruim contextual, um ruim que dissimulasse pressa e medo, como convinha. Era um ruim exagerado, apelativo, desses que não escondem direito o desejo de manipular.
Mas tolo fui eu. Que menosprezei o desejo coletivo de se deixar enganar. Era segunda-feira à tarde, poxa. Todo mundo queria colaborar... E, assim, o tédio organizado cancelou os expedientes, interrompeu tudo que havia de inadiável e entupiu as ruas de carros. Diziam que era medo. Eu, que ainda não aprendi a brincar de adulto, nem me dei ao trabalho de me assustar. Sabe que até pensei em ir ao cinema?
Achei que seria alienação demais. Em minha defesa, preciso dizer que os noticiários e a ficção banalizaram as catástrofes. Era segunda-feira à tarde e, ah, um cineminha cairia tão bem. Quando teríamos essa oportunidade outra vez?
Não, não tive coragem de assumir meu hedonismo infanto-juvenil em plena guerra civil (naquela altura, todo exagero era permitido) e decidi que seria socialmente mais aceitável locar um filme, o que poderia ser feito com discrição. No mais, os cinemas também fechariam logo-logo.
Ao menos, eu compraria beirutes! Eu e meus mecanismos de autocompensação... De matar a fome eu tinha direito, certo? Só que, pertinho de casa, desisti também de passar na locadora. Foi acometido por aquela vergonha que de vez em quando a gente sente do que a gente mesmo vai pensar.
Mesmo imune ao pânico, achando aquela intensidade revigorante, não dava para ignorar o fato de que o pretexto daquilo tudo era sério e triste.
Consciência inútil: fui agraciado com um telejornal que era um filme de ação dos bons. Vi comendo beirute. Não me julgue: era uma forma de estocar calorias, vai. E a cidade inteira era minha cúmplice.
Presos rebelados podem ser muito perigosos; o tédio, também.
Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)
