Minicertezas

Sunday, April 23, 2006

Por fazer

A minha barba rala já havia completado seu segundo milímetro quando começou o feriado prolongado. Justo quando a última limpeza do apartamento fazia seu aniversário semanal. No blog, uma crônica antiga ostentava os mesmos dois comentários há uns quinze dias. O passado e o seu rastro.

No meu guarda-roupa, havia uma pilha de camisetas deixadas para depois. Depois variados. Lavo depois, passo depois, dôo aos mais pobres depois, penduro no cabide depois. Armários e dispensas são o inconsciente do lar – quando acha que está “sem tempo”, a gente põe o entulho para dentro e fecha porta.

A semana terminou, mais curta, deixando suas pendências - móveis empoeirados e barba por fazer. E eu me tranquei do lado de fora, como se não fosse comigo. Mas era. O desleixo é uma liberdade precária, corroída devagarinho pelo desânimo. Fui me cansando do cansaço, sabe?

Feriados prolongados nos destituem da velha desculpa de não ter tempo. Porque não ter tempo é um eufemismo para não ter saco. Na maior parte do tempo, vai. Bem, eu fiz a barba – e não é que fico melhor mesmo de cara lisa?

Arrumei o guarda-roupa, lavei a louça, passei uma vassoura no chão. Aí, com a casa arrumada e limpa, a gente resolveu convidar os amigos. No dia seguinte, fomos ao parque. Eu até andei de patins!

Agora, cá estou. Escrevendo a crônica, enfim.

Bem, a minha teoria é que pequenos cuidados fazem diferença. A gente começa a ser feliz lavando a louça. Vou tentar me lembrar disso de manhã, quando, na correria do atraso sonolento, eu cogitar deixar para fazer a barba só no dia seguinte.

Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)

Monday, April 10, 2006

Temas para a vida

Cada um tem seu acervo pessoal de temas. Causas. É preciso alguma intimidade com alguém para se conhecer suas grandes questões. Ou pequenas, importantes.

Os meus temas de cabeceira, todos, já renderam crônicas. Por isso, quando me flagro sem idéias para textos, estou, ao mesmo tempo, sem grandes causas (ou pequenas, razoáveis) para a vida. Inéditas, ao menos.

Eis os meus teminhas de sempre: a ditadura do trabalho, o ócio criativo e afins; o mito do amor romântico, autonomia emocional e afins; desafios do convívio social, a tirania da maioria e afins; entrelinhas comportamentais, padrões psicológicos, mecanismos de compensação e afins.

Pronto, esgotei-me.

Os 'afins' são ótimos para falar mais ou menos a mesma coisa sem me sentir tão repetitivo.

E, ah, claro, um dos temas mais recorrentes dos meus textos acaba sendo... a minha vida. Bem, não chega a ser um tema (embora seja uma causa - uma boa causa, vai), mas um meio de se falar sobre os meus assuntinhos. Uma deixa. Isso, cronicamente, a minha vida é uma deixa.

As teses de cada um são um meio de contato com o mundo e com o outro. Chamamos uma causa em comum de afinidade - ainda que seja apertar o tubo de creme dental por baixo. Só que, quanto mais importante a tese compartilhada, maior a identificação. Eu votei contra a posse de armas no plebiscito, e você?

Bobagem se exaltar: algumas discordâncias são perecíveis. É uma delícia quando nos identificamos com um tema que até então não era nosso. Nada mais sedutor que um bom argumento - você expande seu acervo de causas, se renova e estabelece uma nova sintonia com alguém.

Melhor que isso só quando é você o 'transmissor' da tese. Contato estabelecido ativamente. Por isso, tanta gente fica obcecada em provar que está certa. Rota de fuga da solidão.

Mas ansiedade só atrapalha. Se a identificação não é espontânea, besteira falar mais alto. Só restam duas estratégias, bem mais interessantes até: a persuasão e a conquista.

Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)