Minicertezas

Friday, March 31, 2006

Pequenas causas

Os parisienses protestavam contra a publicidade no metrô. Passeata, faixas, gritos de combate, tal como nos manifestamos aqui por aumento de salário ou contra a corrupção. Fiquei com um sentimento dúbio, de admiração e revolta. Puxa, que sociedade sofisticada. Sem grandes tragédias sociais, resta brigar contra sutilezas de imperfeição.

Sim, a vida pode ficar melhor sem os cartazes do McDonald's. É mesmo lindo o minimalismo das paredes nuas. Especialmente no metrô, roteiro de ida e volta de todos os dias. Poluição visual é poluição do cotidiano. Da vida.

Mas, ei, e o resto do mundo? Que tal uma manifestação contra o trabalho infantil na América do Sul? A mutilação feminina na África. Ora, o metrô de Paris é um dos melhores do mundo.

Há de se estabelecer prioridades.

Por outro lado, oui, eu apoio o direito de se protestar por pequenas causas. O detalhe pode comprometer o todo, repare. Que fique registrado, por exemplo, o meu protesto contra pessoas que fumam na escada rolante. Horrível. O resto do refrigerante que não enche um copo. Protesto contra o sinal de telefone ocupado. E também contra quem inadvertidamente me telefona quando eu estou ocupado.

Convoco as pessoas para irem às ruas, caminhando e cantando, contra a rinite. Os plantões de fim de semana. O ônibus que demora a passar. Contra os créditos do celular que acabam antes que se ouça o recado. Protesto contra as diferenças culturais dos dois ou três beijinhos - fico confuso.

O gelo seco: quem inventou que é bacana? Chegar uma hora antes do embarque, tenho mais o que fazer. Protesto contra entrar à noite no hotel e a diária vencer ao meio-dia. Contra o controle remoto do vídeo que muda o canal da tevê. Protesto! Legendas brancas, que somem sempre que há uma parede clara nos cenário. Derrr.. Ninguém pensou nisso?

Pensando melhor, nada de sentimentos dúbios. Os parisienses são geniais. Para eles, meus sinceros votos de paz, amor e fita adesiva que não descola.

Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)

Tuesday, March 14, 2006

Piloto problemático

Era como se meu corpo já conhecesse todos os caminhos e fizesse tudo sozinho, sem mim. O corpo ia para o trabalho mais ou menos ao meio-dia e ficava lá até começar o Jornal Nacional. Piloto automático é quase a mesma coisa que piloto ausente, não? Pois é, eu era o piloto automático, ausente, piloto nenhum.

O corpo cuidava do trajeto, solitário. Eu o atrasava com meus dramas vez ou outra, mas, na maior parte do tempo, ele seguia pontual e independente.

Eu estava cansado da rotina. Cansado de ser piloto nenhum de um corpo atarefado. Até que, de repente, me demitiram. O corpo, coitado, ficou sem saber para onde ir. Eu ensaiei alguma solidariedade, mas ri por dentro. E por fora, usando-o, feliz por assumir o controle.

A partir de então, ele me levaria aonde eu quisesse. Nada de itinerários habituais.

Decidi que trabalharia em casa, mesmo que o corpo às vezes teimasse em seguir em direção à porta. Tudo bem, porque o novo estilo de vida requeria mesmo uma série de iniciativas, contatos.

E lá fomos, o corpo e eu, fazer tudo o que era necessário. Enquanto corríamos de um lado para o outro, checávamos e-mail compulsivamente, escutávamos campainhas telefônicas imaginárias, que surpresa - tudo o que eu queria era saber logo se nosso empenho daria certo.

Tá, eu queria uma rotina. Uma vida para chamar de minha. Um mínimo de previsibilidade.

Aos poucos, isso começou a acontecer. Trabalho depois de trabalho, como se tivessem sido encadeados seqüencialmente. Que bom para a contabilidade. Enfim, uma rotina. No melhor sentido da palavra (existe um!). Eu acordava e sabia o que tinha de fazer. Sem ser levado nem ter de inventar destinos.

Até que surgiu uma proposta de trabalho fixo... E cá estou novamente sem saber como a minha vida vai ser. Em algumas semanas, as coisas se organizam, eu sei, mas como eu organizo os meus pensamentos até lá?

Difícil aceitar pendências quando se tem pressa de viver para valer. Como se houvesse um "de vez".

A rotina é a morada da existência. Um lar para descansar a alma e a atenção. Eu me sinto desabrigado agora. Percebi que sou um nômade esporádico. Estrategista. Por hora, quero pegar carona no meu corpo, só mais um pouquinho, outra vez.

Leandro Quintanilha


(leandroq@gmail.com)