Pequenas causas
Os parisienses protestavam contra a publicidade no metrô. Passeata, faixas, gritos de combate, tal como nos manifestamos aqui por aumento de salário ou contra a corrupção. Fiquei com um sentimento dúbio, de admiração e revolta. Puxa, que sociedade sofisticada. Sem grandes tragédias sociais, resta brigar contra sutilezas de imperfeição.
Sim, a vida pode ficar melhor sem os cartazes do McDonald's. É mesmo lindo o minimalismo das paredes nuas. Especialmente no metrô, roteiro de ida e volta de todos os dias. Poluição visual é poluição do cotidiano. Da vida.
Mas, ei, e o resto do mundo? Que tal uma manifestação contra o trabalho infantil na América do Sul? A mutilação feminina na África. Ora, o metrô de Paris é um dos melhores do mundo.
Há de se estabelecer prioridades.
Por outro lado, oui, eu apoio o direito de se protestar por pequenas causas. O detalhe pode comprometer o todo, repare. Que fique registrado, por exemplo, o meu protesto contra pessoas que fumam na escada rolante. Horrível. O resto do refrigerante que não enche um copo. Protesto contra o sinal de telefone ocupado. E também contra quem inadvertidamente me telefona quando eu estou ocupado.
Convoco as pessoas para irem às ruas, caminhando e cantando, contra a rinite. Os plantões de fim de semana. O ônibus que demora a passar. Contra os créditos do celular que acabam antes que se ouça o recado. Protesto contra as diferenças culturais dos dois ou três beijinhos - fico confuso.
O gelo seco: quem inventou que é bacana? Chegar uma hora antes do embarque, tenho mais o que fazer. Protesto contra entrar à noite no hotel e a diária vencer ao meio-dia. Contra o controle remoto do vídeo que muda o canal da tevê. Protesto! Legendas brancas, que somem sempre que há uma parede clara nos cenário. Derrr.. Ninguém pensou nisso?
Pensando melhor, nada de sentimentos dúbios. Os parisienses são geniais. Para eles, meus sinceros votos de paz, amor e fita adesiva que não descola.
Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)
