Minicertezas

Thursday, February 23, 2006

Sem pensar

De malas prontas para passar o feriado em Boa Esperança, uma cidadezinha no interior de Minas, comecei a pensar em outros carnavais que passei por lá. E foram muitos. Meus avós nasceram na cidade e, quando pequena, a família inteira aproveitava qualquer folguinha para ir a Good Hope, como apelidou um tio. Hoje, as raízes são apenas um pretexto, os parentes próximos não existem mais, mas continuamos indo, puro hábito.

E grande parte de nossos dias vivemos assim, levados por hábito. Às vezes é bom, como ir a Boa Esperança. Mas, fazendo as malas para uma viagem que escolhi, parei para pensar nas situações embaraçosas que já vivi por seguir a escolha dos outros. Uma delas foi no Carnaval - adivinhem onde? Pois é. Toda a família em Boa Esperança, festa na rua, e um dos pais (deve ter sido minha mãe) teve a genial idéia de fazer um bloco das primas. Virei Jane, com direito a presilha de osso no cabelo e vestido rajado à la Pedrita.

Tudo bem se eu gostasse, mas sempre odiei Carnaval e aqueles adereços todos. Mas, como todo mundo ia, acabei achando que o normal era ir. É difícil ir contra o fluxo. Que atire a primeira pedra a mulher que gosta de andar de salto alto.

Somos coagidos na maior parte do tempo. Quase sempre agimos do mesmo modo como se comporta a maioria e, pasmem, nem percebemos isso. Comecei a fazer uma listinha de situações assim e a página se encheu em um instante. Por exemplo, não gosto dessa coisa ‘mulherzinha’ de ir ao banheiro em dupla - ou em bando. Se uma vai, logo chama a outra. E, quando essa outra sou eu, ai, ai, ai...Que graça pode existir em ficar parada entre torneiras e pias esperando alguém fazer xixi? Mas eu vou, todo mundo sempre vai, não seria eu a antipática.

Quando era criança, todas as minhas amigas gostavam de um grupo chamado Dominó. Eu achava aqueles garotos tão bobos! E elas tinham discos, pôsteres, sabiam tudo sobre eles. Era uma febre. E não é que com o tempo eu fui me acostumando. Era isso ou não participar das conversas. E assim somos levados pelas pequenas multidões de nosso convívio.

Isso tudo me veio à cabeça porque em Boa Esperança, bem no centro da cidade, tem um lago enorme, uma delícia para nadar. Só que passei a adolescência inteira sem molhar nem um dedinho nele. É que as pessoas de lá costumam dizer que nadar no lago é uma breguice sem tamanho, “coisa de pobre”. Estou ansiosa para quebrar esse hábito.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, February 21, 2006

Recomeços

Fiz uma matéria certa vez sobre promessas de Ano Novo, planos para segunda-feira, resoluções para mudar de vida, essas listinhas de bons hábitos a adotar e vícios a abandonar que as pessoas se propõem em momentos de agora chega.

Eu mesmo tenho a minha listinha de afazeres (e autoproibições). Nada muito sofisticado, metas corriqueiras que já estou farto de formular para mim mesmo.


Praticar atividade física quatro vezes por semana. Lavar os pratos assim que sujá-los. Ler e escrever todos os dias. Não repetir a sobremesa. Ir para cama no máximo à meia-noite. Acordar às oito. Fazer a barba todos os dias, de manhã. Telefonar para meus pais antes que eles tomem a iniciativa de me ligar. Encontrar um trabalho voluntário. Usar com parcimônia o programa de bate-papo. Talvez não usá-lo mais... Limpar a casa antes do fim de semana. Passar filtro solar todos os dias. Sair ao sol todos os dias. Passar a roupa assim que a recolher do varal. Não sucumbir à ansiedade. Manter o armário organizado.

E tento fazer – ou deixar de fazer – tudo isso de uma vez por todas, todas as vezes.

Os especialistas que entrevistei não me deram muitas esperanças. Essas listas são invariavelmente falíveis, porque as pessoas são invariavelmente falíveis. Mas é variável o grau de falibilidade. Porque as pessoas, falíveis, são variáveis. Variam umas em relação às outras. E em relação a si mesmas.

Eu simpatizo com o existencialismo e a idéia da responsabilidade que cada um precisa assumir sobre a própria vida. Por isso, me apego tanto à minha listinha. Meus afazeres queridos, minhas proibições estimadas. Estariam todos, a princípio, a meu alcance.

Não posso me tornar mais alto, mas fazer a barba todos os dias, sim, está sob o meu controle. Não sou presidente de nada, mas posso tranqüilamente dar aulas de redação num cursinho comunitário. A minha listinha só depende de mim. Ótimo não precisar que outras pessoas tomem as iniciativas. Péssimo eu ter de tomar todas as iniciativas sozinho.

Os especialistas não foram de todo pessimistas. Já que a falha é normal e previsível, a grande dica é aprender a recomeçar depois cada recaída. Eu incluí de pronto esse novo item na minha listinha. Falhei. Agora, só preciso recomeçar a recomeçar.

Leandro Quintanilha


(leandroq@gmail.com)

Friday, February 10, 2006

Rodinha na calçada

Não é frase clichê: minha família é muito unida. Dessas em que filhos, netos e bisnetos se encontram todas as noites na casa da avó. Quando criança, almoçávamos juntos aos domingos, mas aí a vó Edna (aquela que descobriu as bijouterias aos 83 anos) ficou doente e os tios decidiram pôr fim a esse costume. Cada um em sua casa. As crianças fizeram até passeata, com cartazes de protesto e batuque improvisado em tampas de panela para que os almoços voltassem, mas não deu certo. Eu devia ter uns 12 anos.

A doença passou, os almoços não voltaram, mas continuamos todos lá, na casa de minha avó ao cair da tarde. De segunda a segunda. A vizinhança nos conhece pelo hábito de colocarmos cadeiras na calçada e ficarmos horas a fio conversando à toa. Começa com duas ou três pessoas e, em certos dias, passam de vinte.

O que a gente faz ali? Nada. Nos encontramos para falar dos assuntos mais bestas, chupar geladinho ou comer pipoca com café - assim mesmo, no meio da rua. Ali descobrimos que uma prima conseguiu um emprego novo ou que brigou com a chefe. Discutimos se um tio deve ou não deve comprar um triciclo. Se é hora de uma sobrinha ter filho ou não. Costumamos dizer que um namoro na família só se torna oficial quando o pretendente participa da ‘rodinha’. Caso contrário, ele não passa de um ficante qualquer.

Aliás, é assim que chamamos essa reunião na calçada: ‘rodinha da casa da vó’. Cada um dá seu palpite na vida alheia (ops, na vida dos familiares e dos conhecidos também). Minhas amigas dizem que é o jornal da tarde. Pura ironia.

Só que a cidade foi ficando pequena para nossas pretensões. Alguns netos (como eu) foram estudar fora, outros se casaram e se mudaram para outro estado e até outro país. A rodinha continua lá, firme e forte. E quem está longe se coça de curiosidade para saber o que andam dizendo.

Ah, essa tal de internet. Outro dia tivemos a idéia de criar no Orkut a comunidade ‘Rodinha da casa da vó online’, uma versão virtual da que ocorre na calçada. Deu muito certo. Já somos 16 os membros e discutimos tópicos da mais alta importância na família: se Théo (nome cotado para meu sobrinho que vai nascer em julho) é ou não é só um apelido, se o filho de minha prima que mora nos EUA deve ser brasileiro ou americano quando nascer (ela nem está grávida), quantos passarinhos tem na casa do neto mais velho (o Diovane, eu chutei 35). E essas coisas todas, que parecem besteira, mas que são o pretexto para estarmos juntos.

A rodinha online já é meu novo vício.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, February 07, 2006

Emergências

Virou anedota na família a noite em que minha mãe acordou meu irmão no sofá da sala para que ele fosse dormir no quarto. Normal até aí, não tivesse ela o acompanhado até a cama, falante, divagando sobre o prazer de se fazer as coisas de que se tem vontade na hora em que a vontade bate. Como ter sono e poder dormir.

Mas ela tinha uma longa lista de exemplos, como sentir vontade fazer xixi e ir ao banheiro, ficar com fome e comer lasanha, procurar o controle remoto e achá-lo debaixo da primeira almofada... Meu irmão, coitado, bêbado de sono, precisava levantar as sobrancelhas para manter as pálpebras abertas, enquanto a mamãe, sentada à beira da cama, prosseguia com a sua filosofia. “E dormir quando a gente tá com sono, né, mãe?”

Acho que seria um privilégio ter um desejo realizado assim que bate a vontade. Ah, isso seria o instante perfeito. Sem o trabalho árduo da conquista, sem o medo de não conseguir. Simplesmente, puft, desejo realizado. Mas dizem que o prazer da vitória é maior quanto mais longa a jornada. Lembro-me do verso daquela música que remete a um orgasmo: “Quanto mais tempo demora, mais violento vem.”

Tá, isso vale para orgasmos.

O problema é que, às vezes, se demora demais, a vontade passa. Ou vira outra coisa. Sono vira mau-humor, fome vira dor de cabeça. Tesão passa. Solidão também. Tenho uma amiga para quem é difícil namorar, porque o interesse pelos pretendentes passa muito rápido.

Uma vez, bateu a vontade de ver um cara aí. Ela então o convidou para uma visita. Mas o rapaz demorou. Quando a campainha tocou, que aflição. Foi só olhar para a cara dele e constatar: agora a vontade era outra, 20 páginas de Garcia Márquez.

Tudo isso me lembra aquelas frases feitas de agenda juvenil. “Cuidado com o que deseja – você pode conseguir!” (Ainda que demore, né? Eu voto pelo direito de mudar de opinião.) Ou: “O importante não é ter tudo o que deseja, mas desejar tudo o que possui.” Hum-rum. E mais aquela, clássica: “O ser humano é um eterno insatisfeito.”

Eu sinto vontade de expressar a minha discordância. Eu discordo. Acho que vontade é uma coisa difícil de controlar. Culpemos o inconsciente. E a realidade pode ser mesmo, muitas vezes, irremediavelmente insatisfatória. Pronto, saciei meu desejo no ato. O instante perfeito.

Mas, neste exato agora, o que eu queria mesmo era sorvete de creme com granola.

Leandro Quintanilha


(leandroq@gmail.com)