Sem pensar
De malas prontas para passar o feriado em Boa Esperança, uma cidadezinha no interior de Minas, comecei a pensar em outros carnavais que passei por lá. E foram muitos. Meus avós nasceram na cidade e, quando pequena, a família inteira aproveitava qualquer folguinha para ir a Good Hope, como apelidou um tio. Hoje, as raízes são apenas um pretexto, os parentes próximos não existem mais, mas continuamos indo, puro hábito.
E grande parte de nossos dias vivemos assim, levados por hábito. Às vezes é bom, como ir a Boa Esperança. Mas, fazendo as malas para uma viagem que escolhi, parei para pensar nas situações embaraçosas que já vivi por seguir a escolha dos outros. Uma delas foi no Carnaval - adivinhem onde? Pois é. Toda a família em Boa Esperança, festa na rua, e um dos pais (deve ter sido minha mãe) teve a genial idéia de fazer um bloco das primas. Virei Jane, com direito a presilha de osso no cabelo e vestido rajado à la Pedrita.
Tudo bem se eu gostasse, mas sempre odiei Carnaval e aqueles adereços todos. Mas, como todo mundo ia, acabei achando que o normal era ir. É difícil ir contra o fluxo. Que atire a primeira pedra a mulher que gosta de andar de salto alto.
Somos coagidos na maior parte do tempo. Quase sempre agimos do mesmo modo como se comporta a maioria e, pasmem, nem percebemos isso. Comecei a fazer uma listinha de situações assim e a página se encheu em um instante. Por exemplo, não gosto dessa coisa ‘mulherzinha’ de ir ao banheiro em dupla - ou em bando. Se uma vai, logo chama a outra. E, quando essa outra sou eu, ai, ai, ai...Que graça pode existir em ficar parada entre torneiras e pias esperando alguém fazer xixi? Mas eu vou, todo mundo sempre vai, não seria eu a antipática.
Quando era criança, todas as minhas amigas gostavam de um grupo chamado Dominó. Eu achava aqueles garotos tão bobos! E elas tinham discos, pôsteres, sabiam tudo sobre eles. Era uma febre. E não é que com o tempo eu fui me acostumando. Era isso ou não participar das conversas. E assim somos levados pelas pequenas multidões de nosso convívio.
Isso tudo me veio à cabeça porque em Boa Esperança, bem no centro da cidade, tem um lago enorme, uma delícia para nadar. Só que passei a adolescência inteira sem molhar nem um dedinho nele. É que as pessoas de lá costumam dizer que nadar no lago é uma breguice sem tamanho, “coisa de pobre”. Estou ansiosa para quebrar esse hábito.
Patrícia Pereira
(minicertezas@ibest.com.br)
