Minicertezas

Monday, January 30, 2006

Idealização

Meu eu ideal sabe contar piadas sem rir ele mesmo. Consegue passar diante de um espelho sem ajeitar o cabelo. É capaz de dar a melhor resposta no ato, não se exaure em diálogos imaginários, tardios. Meu eu ideal não esquece as palavras. Não se confunde, não gagueja, não se repete.

Ele aprecia a própria companhia sempre que com ela se depara. Eu disse sempre. E não se deixa ameaçar pela solidão alheia. Sabe dizer não sem sentir culpa. Sabe dizer sim sem se sentir impotente. Meu eu ideal faz trabalho voluntário e não conta para ninguém. Olha nos olhos, presta atenção no que dizem. Não se deixa perder na ansiedade dos próprios pensamentos.

Meu eu ideal tem boa mira e não se intimida quando o assunto é futebol. Sabe se comportar em festas de família, festas de trabalho, festas de gente desconhecida. Não tem medo que descubram o que ele não leu, não viu, não entendeu.

Ele não se descobre sem idéias no meio de um problema. Não se deixa abater. Não se deixa irritar. Reivindica seus direitos sem sentir vontade de chorar. Meu eu ideal não diz (nem silencia) algo de que vai se arrepender.

Meu eu ideal não se deixa levar pelo turbilhão. Não quer provar nada a ninguém, não precisa de aval. De justificativa. Não faz hora extra, porque simplesmente não suporta e o mundo precisa entender. Não quer vencer na vida, não quer vencer ninguém - acha que nada de fato importante tem a ver com disputa. Não segue o mapinha do sonho dos outros.

Meu eu ideal não precisa ser brilhante, não precisa ser perfeito. Porque é corajoso.

Nunca tem insônia, taquicardia. Não sente medo do tempo, das contas, de grandes tragédias, de doenças degenerativas, de nunca desvendar o mistério. Ou de o enigma, desfeito, ser decepcionante. Meu eu ideal não tem medo de chegar ao fim da vida desavisado, sem ser tudo o que poderia ter sido.

Ainda aprendo com ele.


Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)

Wednesday, January 18, 2006

Limonada

Cheguei para trabalhar, apressado, como num dia qualquer. E, mal liguei o computador, uma conversa séria: fui demitido, sem justa causa. O problema não era comigo, parecia término de namoro. O problema não era comigo e virou problema meu.

Resumi assim, porque já contei essa história um zilhão de vezes, como quem quebra um braço e tem de explicar o gesso. Quando se é demitido assim de repente, a cabeça vai a mil. Especialmente, no começo do expediente. Saí do jornal com duas grandes dúvidas: o que faria da minha vida e, ainda não era uma hora, o que faria do meu dia. Um cineminha talvez?

No elevador, reparei que usava a mesma camisa azul claro, xadrezinha, do dia em que tirei a foto para o crachá, dois anos antes. Achei graça (sei que não era o momento): estava com o figurino ideal para encerrar um ciclo. Ah, se eu acreditasse em destino...

Como não acredito, a camisa repetida, claro, não deu sentido a tudo, não. Ainda havia o aluguel e eu não sabia como faria uma limonada do ocorrido. O tempo passou e comecei a estranhar o fato de não ficar triste. Difícil sofrer quando se está ‘de folga’ e recebe tantos abraços, afagos, e-mails, telefonemas. Demissão parece aniversário, comentei com alguém.

O presente é a liberdade. Eu estava num turbilhão de obrigações, expedientes, escalas, plantões. Não sabia como escaparia daquela rotina, um dia. O mundo lá fora eu via por brechas de férias e feriados, cronometrados. Num dia qualquer, num dia de trabalho, a liberdade me foi entregue num envelope pardo. E o problema não era comigo!

Também é difícil aceitar que você está potencialmente mais pobre quando a grana da rescisão é muito maior do que estava acostumado a receber. Demitidos ganham bem. O melhor emprego do mundo seria o de demitido com vínculo empregatício...

Do jeito que está, é como se eu estivesse de férias - só que com medo. Agora, tenho responsabilidade sobre as minhas próprias horas, o que seria simplesmente perfeito, se elas não tivessem se transformado em máquinas de gerar contas. Ao menos, passam mais devagar. Devagar até demais para quem ainda não se libertou do vício da ocupação. Ainda são poucos os dias de vida nova e meus tênis nunca estiveram tão limpos.

O que dói mesmo é ter tantas pessoas queridas arrancadas subitamente do meu convívio. É uma espécie de morte, sabe? O nó na garganta só se desfaz quando me lembro de que, para esse tipo específico de morte, não é preciso ser médium para fazer uma visita. Ou receber.

A rotina engana com a sua pseudopermanência. Às vezes, ela muda aos pouquinhos e a gente nem nota. Em outras, muda tão de repente que assusta antes de revelar a possibilidade de ficar melhor. Por isso, eu me apresso em esquecer o medo e adivinhar alguma alegria. Como no final da tarde daquele mesmo dia em que fui demitido: dois amigos e eu fizemos uma festinha improvisada, ao clima de ‘tudo vai dar certo’, com pão italiano e requeijão.

Acho que vai mesmo. Estou seguro de que sou um funcionário insubstituível da minha própria vida. E, se ela me dá um limão, ah, eu faço uma crônica.


Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)

Thursday, January 12, 2006

A velha vida nova

Comecei o ano cheia de planos. Esses de vida nova que, se existem, é porque fizemos tudo errado nos meses anteriores. Por garantia (não confio muito no meu poder de disciplina) pulei sete ondinhas à meia-noite e fiz um pedido, arrastando mais dois amigos para a simpatia. Quem sabe iemanjá não resolve tomar por mim as rédeas da vida.

Um dos planos era caminhar todos os dias. E já estamos no dia 12 (13, 14...). Mas eu explico, ou justifico, essa quebra de promessa tão prematura. Os imprevistos, eles são sempre os vilões. Tive de fazer a segunda fase da Fuvest (calma, calma, isso estava no calendário, sei que não serve como desculpa) e apesar de ter me organizado para só estudar nesse início de 2006 até que passassem as malditas provas, aconteceu o contrário: foi a época em que tive mais trabalho. Corta horas daqui, busca paciência ali. E o tempo que me faltou foi retirado da caminhada.

E os poucos dias de 2006 já sabotaram algumas das promessas de ano novo. A idéia era começar logo uma reeducação alimentar - estava no pacote ‘ficar magra, com pele boa e sem queda de cabelos”. Mas aí entrevistei um bando de psiquiatras para uma matéria de comportamento e saí dessa maratona muito bem-resolvida. Que dieta que nada. Mais vale uma terapia, nem que seja por tabela, como definiu meu companheiro de blog.

Um terceiro plano era não usar minha vida pessoal e rotineira como tema aqui no blog. Desde o início, sei que o propósito do Mini não é ser um diário. Mas aí esse plano se chocou com um quarto: o de não atrasar mais os textos e atualizar o Mini no dia certo. Um paradoxo - como escrever se não sei sobre o que e se nos últimos dias só convivi com meu umbigo, resumi o mundo em minha rotina?

Ué, será que eu faço isso o tempo todo? Só eu tenho essa deficiência ou alguém aí consegue observar o mundo por um ponto de vista fora de si? Preciso encontrar a tática de me deparar com esses temas. Um mistério que quase empata com aquele outro, terror dos jornalistas: ‘de onde vem a pauta?’. Alguém aí explica? Nunca aprendi na faculdade e nem no jornal.

Enquanto não soluciono o problema e consigo um tema por semana para publicar aqui, aceitei esses parágrafos, recheados de referências pessoais mesmo. É que o Leandro me intimou a escrever, ainda que o tema do texto fosse não ter tema, mas aí chegamos à conclusão de que qualquer amontoado de frases seria melhor do que esse escapismo temático, já tão batido.

Hummm...dá tempo de trocar meu pedido a iemanjá? Eu juro que pulo outras sete ondinhas. É que em 2006 continuei sendo a mesma Patrícia e é por isso que tudo está resistindo tanto em mudar.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, January 08, 2006

Jornalismo doentio

Fui advertido no primeiro dia: jornalistas que escrevem sobre saúde tendem a ficar hipocondríacos. Porque quem cobre saúde escreve, paradoxalmente, sobre a falta dela. Vírus, tumores, traumas, síndromes, disfunções e outros temas para uma rica inspiração profissional. Ou um vertiginoso declínio físico/mental, por auto-sugestão.

Grande bobagem, pensei. Coisa de gente influenciável. Afinal, não há nenhum indício de que colegas da editoria policial passem a apresentar, numa analogia barata, um perigo à ordem pública. E, ao pesquisar sobre saúde (doenças), posso me informar melhor para uma vida, bem, que não dê esse tipo de notícia. Prevenção é o melhor tratamento et cetera et cetera.

Decidi não levar o aviso a sério. A hipocondria seria particularmente preocupante no meu caso, já que minhas pautas preferenciais são... as psiquiátricas. Escrever sobre doenças é saudável! Minha melhor amiga, colega de profissão (e do blog), comentou que adora esse tipo de matéria. Você entrevista os especialistas e faz análise por tabela.

Tem funcionado bem para mim. É impressionante como entender sobre estado crítico ajuda a tratar ferimentos leves. Por exemplo: escrever sobre estresse, fobia social, depressão e paranóia foi ‘um santo remédio’ em momentos de, respectivamente, irritação, timidez, mau-humor e pulga atrás da orelha.

Mas eis que fiz um diagnóstico (amador) no meio do expediente de uma terça-feira. Era uma matéria sobre Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). A minha dispersão, que já foi tema de uma crônica anterior (e de um zilhão de piadinhas entre amigos), talvez não seja apenas uma característica peculiar de personalidade.

Tenho seis dos nove sintomas de desatenção. (Que isso sirva de lição para um certo amigo que, sem ter nenhuma noção de psiquiatria, teima em diagnosticar meu autismo.) Mas será que tenho mesmo TDAH? Isso explicaria muita coisa, como as quatro vezes em que fui reprovado no exame de direção ("Ué, era conversão proibida ali?") e as quatro mil vezes em que falaram comigo e só escutei o monólogo dos meus pensamentos.

Cedo demais para saber. Eu, honestamente, acho que não é para tanto. Vou ao médico para me certificar de que é a minha única doença mental, como previam os agourentos, é hipocondria mesmo. E, para atestar minha sanidade psíquica no geral, vou prestar bastante atenção no diagnóstico.


Leandro Quintanilha


(leandroq@gmail.com)