Idealização
Meu eu ideal sabe contar piadas sem rir ele mesmo. Consegue passar diante de um espelho sem ajeitar o cabelo. É capaz de dar a melhor resposta no ato, não se exaure em diálogos imaginários, tardios. Meu eu ideal não esquece as palavras. Não se confunde, não gagueja, não se repete.
Ele aprecia a própria companhia sempre que com ela se depara. Eu disse sempre. E não se deixa ameaçar pela solidão alheia. Sabe dizer não sem sentir culpa. Sabe dizer sim sem se sentir impotente. Meu eu ideal faz trabalho voluntário e não conta para ninguém. Olha nos olhos, presta atenção no que dizem. Não se deixa perder na ansiedade dos próprios pensamentos.
Meu eu ideal tem boa mira e não se intimida quando o assunto é futebol. Sabe se comportar em festas de família, festas de trabalho, festas de gente desconhecida. Não tem medo que descubram o que ele não leu, não viu, não entendeu.
Ele não se descobre sem idéias no meio de um problema. Não se deixa abater. Não se deixa irritar. Reivindica seus direitos sem sentir vontade de chorar. Meu eu ideal não diz (nem silencia) algo de que vai se arrepender.
Meu eu ideal não se deixa levar pelo turbilhão. Não quer provar nada a ninguém, não precisa de aval. De justificativa. Não faz hora extra, porque simplesmente não suporta e o mundo precisa entender. Não quer vencer na vida, não quer vencer ninguém - acha que nada de fato importante tem a ver com disputa. Não segue o mapinha do sonho dos outros.
Meu eu ideal não precisa ser brilhante, não precisa ser perfeito. Porque é corajoso.
Nunca tem insônia, taquicardia. Não sente medo do tempo, das contas, de grandes tragédias, de doenças degenerativas, de nunca desvendar o mistério. Ou de o enigma, desfeito, ser decepcionante. Meu eu ideal não tem medo de chegar ao fim da vida desavisado, sem ser tudo o que poderia ter sido.
Ainda aprendo com ele.
Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)
