Por fazer
A minha barba rala já havia completado seu segundo milímetro quando começou o feriado prolongado. Justo quando a última limpeza do apartamento fazia seu aniversário semanal. No blog, uma crônica antiga ostentava os mesmos dois comentários há uns quinze dias. O passado e o seu rastro.
No meu guarda-roupa, havia uma pilha de camisetas deixadas para depois. Depois variados. Lavo depois, passo depois, dôo aos mais pobres depois, penduro no cabide depois. Armários e dispensas são o inconsciente do lar – quando acha que está “sem tempo”, a gente põe o entulho para dentro e fecha porta.
A semana terminou, mais curta, deixando suas pendências - móveis empoeirados e barba por fazer. E eu me tranquei do lado de fora, como se não fosse comigo. Mas era. O desleixo é uma liberdade precária, corroída devagarinho pelo desânimo. Fui me cansando do cansaço, sabe?
Feriados prolongados nos destituem da velha desculpa de não ter tempo. Porque não ter tempo é um eufemismo para não ter saco. Na maior parte do tempo, vai. Bem, eu fiz a barba – e não é que fico melhor mesmo de cara lisa?
Arrumei o guarda-roupa, lavei a louça, passei uma vassoura no chão. Aí, com a casa arrumada e limpa, a gente resolveu convidar os amigos. No dia seguinte, fomos ao parque. Eu até andei de patins!
Agora, cá estou. Escrevendo a crônica, enfim.
Bem, a minha teoria é que pequenos cuidados fazem diferença. A gente começa a ser feliz lavando a louça. Vou tentar me lembrar disso de manhã, quando, na correria do atraso sonolento, eu cogitar deixar para fazer a barba só no dia seguinte.
Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)

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