Minicertezas

Friday, February 10, 2006

Rodinha na calçada

Não é frase clichê: minha família é muito unida. Dessas em que filhos, netos e bisnetos se encontram todas as noites na casa da avó. Quando criança, almoçávamos juntos aos domingos, mas aí a vó Edna (aquela que descobriu as bijouterias aos 83 anos) ficou doente e os tios decidiram pôr fim a esse costume. Cada um em sua casa. As crianças fizeram até passeata, com cartazes de protesto e batuque improvisado em tampas de panela para que os almoços voltassem, mas não deu certo. Eu devia ter uns 12 anos.

A doença passou, os almoços não voltaram, mas continuamos todos lá, na casa de minha avó ao cair da tarde. De segunda a segunda. A vizinhança nos conhece pelo hábito de colocarmos cadeiras na calçada e ficarmos horas a fio conversando à toa. Começa com duas ou três pessoas e, em certos dias, passam de vinte.

O que a gente faz ali? Nada. Nos encontramos para falar dos assuntos mais bestas, chupar geladinho ou comer pipoca com café - assim mesmo, no meio da rua. Ali descobrimos que uma prima conseguiu um emprego novo ou que brigou com a chefe. Discutimos se um tio deve ou não deve comprar um triciclo. Se é hora de uma sobrinha ter filho ou não. Costumamos dizer que um namoro na família só se torna oficial quando o pretendente participa da ‘rodinha’. Caso contrário, ele não passa de um ficante qualquer.

Aliás, é assim que chamamos essa reunião na calçada: ‘rodinha da casa da vó’. Cada um dá seu palpite na vida alheia (ops, na vida dos familiares e dos conhecidos também). Minhas amigas dizem que é o jornal da tarde. Pura ironia.

Só que a cidade foi ficando pequena para nossas pretensões. Alguns netos (como eu) foram estudar fora, outros se casaram e se mudaram para outro estado e até outro país. A rodinha continua lá, firme e forte. E quem está longe se coça de curiosidade para saber o que andam dizendo.

Ah, essa tal de internet. Outro dia tivemos a idéia de criar no Orkut a comunidade ‘Rodinha da casa da vó online’, uma versão virtual da que ocorre na calçada. Deu muito certo. Já somos 16 os membros e discutimos tópicos da mais alta importância na família: se Théo (nome cotado para meu sobrinho que vai nascer em julho) é ou não é só um apelido, se o filho de minha prima que mora nos EUA deve ser brasileiro ou americano quando nascer (ela nem está grávida), quantos passarinhos tem na casa do neto mais velho (o Diovane, eu chutei 35). E essas coisas todas, que parecem besteira, mas que são o pretexto para estarmos juntos.

A rodinha online já é meu novo vício.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

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