Posso ajudar(-me)?
Um amigo comentou que eu tenho um pé na auto-ajuda, por causa de uma peça que elogiei. Só então me dei conta de que o tal espetáculo tinha lá mesmo um pezinho na auto-ajuda. A peça, não eu, pensei. Espere aí: eu também.
Esse amigo disse isso para me alfinetar. E posso dizer que senti (de leve) a picada. Mas, primeiro, preciso dizer que não gosto dessa expressão. Essa coisa de ter um pé em algum lugar. Só um pé. E o resto do corpo fora, para não se contaminar. É uma expressão muitíssimo preconceituosa, basta lembrar a versão original: ter um pé na cozinha.
Mas o assunto aqui é o fato de eu ter, okay, um pé na auto-ajuda. Ou o fato de o meu amigo achar que isso seja uma deixa para alfinetação. Ou o fato de eu sentir a picada. Levemente.
Escrevo sobre comportamento e, por isso, muitas vezes livros de auto-ajuda são material de trabalho. A minha mesa, no jornal, está tomada de publicações do gênero. Tudo coisa de trabalho. Outro dia, no ônibus, uma colega me perguntou o que eu estava lendo. Desconversei, marcando a página: "Coisa de trabalho."
O fato de ser assunto profissional, percebo, é às vezes um ótimo pretexto. Para ler - ou ao menos folhear - obras que eu jamais teria coragem de comprar numa livraria. Algumas, nem na internet: ficaria com vergonha de mim mesmo (a propósito, acho 'mim mesmo' uma redundância; acaso haveria mim outro?).
Sempre acreditei que amor próprio seja um pré-requisito para a vida em sociedade. Quando vejo alguém numa situação de auto-abandono, não raro penso, indignado: “Mas ele não se ajuda!” Quem não se ama o suficiente fica sem energia para generosidade com os demais e se torna uma ameaça pública - pessoas com déficit de amor são perigosas. Mas... auto-ajuda ajuda?
Depende. A má-fama dessas publicações não é de todo injusta. Há muita gente enriquecendo por aí com receitas, em tópicos, para felicidade amorosa e sucesso profissional. Como se a vida fosse um videocassete, que, com manual, fica fácil programar. Deveria haver auto-ajuda para selecionar auto-ajuda.
Oportunismos à parte, o princípio que move a auto-ajuda é nobre: a busca por meios de se conhecer e se relacionar melhor. A filosofia, a psicanálise e as religiões lançam-se na mesma empreitada - com uma ressalva (ou agravante?): geralmente, sem simplificações.
Ah, e a arte! Outro dia chegou ao jornal um livro de auto-ajuda que reunia textos de gente como Machado de Assis e Clarice Lispector. A teoria do editor era de que, se apura a sensibilidade e expõe preconceitos, a literatura é, sim, um recurso para o que se chama hoje de ‘desenvolvimento pessoal’. Não pude discordar.
Meu amigo que me alfinete. Pelo bem da humanidade (afinal, sou um ser social), decido que farei, sim, uso dos meios que eventualmente julgar necessários para ajudar a mim. Mesmo.
Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)
P.S.: Enfim, o serviço. A peça que elogiei é Parem de Falar Mal da Rotina, de Elisa Lucinda - salvo engano, agora em cartaz no Rio. E tal o livro que faz auto-ajuda da melhor literatura é Valores para Viver (organização de Maria Isabel Borja e Márcio Vassalo, Ed. Guarda-Chuva, R$ 20).
