Minicertezas

Wednesday, November 30, 2005

Vermelho Ferrari

Minha avó tem 82 anos e vem, pobrezinha, acompanhando sem resignação a morte de primos, amigos, vizinhos - colegas de geração. Nos últimos anos, o tempo leva um a um. Como num filme de suspense, ela cogita, entre os octogenários sobreviventes, quem será a próxima vítima.

Na rua onde mora, a morte seguia mão-única como o fluxo dos carros, da esquerda para a direita. Vovó chegou a brincar com seu João, o vizinho da esquerda, que ele partiria antes dela. Mas a morte, fingindo que os esqueceu, pulou os dois e levou a vizinha da esquina.

Fico intrigado com esse sentimento contraditório de quem perde uma pessoa querida da mesma geração, uma tristeza aliviada. Como se a morte de um análogo representasse uma nova chance. Um renascimento.

Só que, a cada velório, enterro, missa de sétimo dia, vovó renasce com mais medo. É dessas que respondem a verdade quando alguém pergunta como vai. Tem labirintite, osteoporose, diabete. E mais os efeitos colaterais dos medicamentos. E da interação entre eles. E dos efeitos colaterais dos medicamentos paliativos contra os efeitos colaterais.

Vovó também tem solidão. Saudade dos filhos que foram morar longe. Dos netos. Dos bisnetos cujo crescimento acompanha em recortes: Natal, Ano Novo, Dia das Mães, aniversário. O pequeno não andava na Páscoa e já corre em dezembro, como se tivesse sido sempre assim.

Eu me lembro de quando ela pintou os cabelos pela primeira vez. Tinha sessenta e poucos. E foi engraçado porque ficou dez anos mais jovem do que parecia nas fotos de dez anos antes. Aí uma tia brincou de enganá-la. Comprou um batom: “É clarinho, mãe.” E era, de fato, nos primeiros minutos. Depois, ficava vermelho Ferrari. Todo mundo adorou saber que o efeito durava 24 horas. Até vovó, posso apostar.

Foi a única vez que usou aquele batom. Achava que estava velha demais. Já se passaram uns 20 anos - um quarto do que viveu até hoje, né? A morte finge que a esquece, mas ela não se esquece da morte.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

P.S.: Desculpa, Paty. Achei que minha avozinha também merecia uma crônica. ;-)

Tuesday, November 22, 2005

Gente como a gente

A minha turma na adolescência, puxa, tenho até vergonha de contar: eram os riquinhos de Barrados no Baile. Hoje, quando reencontro os gêmeos(!) Brenda e Brendon Walsh na mudança dos canais, finjo que não reconheço e sigo adiante. Em dez anos, eu amadureci razoavelmente a ponto de deixar de ser tão bobinho. Eles, na reprise, continuam os mesmos. O Brendon com aquele topete...

Na faculdade, os meus amigos do peito (e o primeiro namorado) tinham seis fortes concorrentes: Rachel, Chandler, Monica, Joey, Ross e Phoebe, de Friends. E minha mãe jamais entenderia por que deixei de ir a tantas festas de família por causa de Seinfeld (todos os dias, em reprise vitalícia) e Ally McBeal, a das boas temporadas.

Lembrei-me de tudo isso hoje de manhã, quando, ao sair de uma entrevista, preferi tomar um ônibus a chamar o carro do jornal. Não, não é masoquismo. É que, no ônibus, eu posso ler e, no carro, bem, isso seria quase uma grosseria. O motorista é sempre um conhecido, que precisa desabafar sobre o trânsito. Ou com quem devo falar sobre a meteorologia para preencher o silêncio da nossa falta de intimidade.

Por sorte, São Paulo é uma rica fonte de mudanças de tempo...

Mas hoje eu troquei o “será que vai chover?” pela privacidade (em público) do ônibus coletivo. E um livro de contos. Troquei um humano só por um ‘pacote’ com mais de vinte, o que seria um ótimo negócio, se gente fosse contável assim por unidade ­- e, ah, se essa minha turma toda não fosse de mentirinha. Troquei o real pela sua representação, multiplicada.

Às vezes, sinto-me culpado por preterir assim os humanos de carne e osso. Quantas vezes fui ao cinema sem avisar ninguém! Para ficar a sós com a ficção... É que a arte é tão verossímil e a vida soa, por vezes, como uma história mal-contada. A minha, inclusive. Mais fácil me emocionar com animação de massinha do que com o Jornal Nacional (raiva não conta, tá?).

Por isso, ouso dizer que os personagens são gente, sim. Do jeito deles, fictício, é verdade, mas gente. Melhor: gente com edição.

Mas, no correr dos anos, os personagens tem me ajudado a apurar minha sensibilidade. A ponto de (quem diria?) preteri-los, cada vez mais, em favor dos humanos de verdade. Estranho, porque, convenhamos, somos ‘personagens’ contraditórios e mal-concebidos numa produção de baixo orçamento. O que, só percebo agora, também tem seu encanto.

Sim, nesta temporada tenho visto menos televisão. Talvez por isso Brendon Walsh e seu topetezinho 1994 tenham perdido seu charme no meu zapear 2005. Começo a apreciar gente de verdade. Ao vivo, em versão integral.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Friday, November 18, 2005

Vaidade aos 83

Sentada no mesmo lugar de sempre no sofá de sua casa, encontrei minha avó cheia de bijouterias. Nada estranho fora o fato de ela nunca ter usado algo além da aliança até os 83 anos. Começou com um anel, que passou a dois, depois vieram as pulseiras e o cordão. Até as unhas da mão, que antes recebiam no máximo base incolor, pintou com esmalte café. Tudo em menos de um mês. “Não sabia que era bom assim”.

Minha avó nasceu na roça, em uma família com seis irmãs. Foi a escolhida entre as meninas para ajudar o pai na fazenda. Tocava gado, tirava leite, cuidava dos porcos. Lembra que as irmãs costuravam e ajudavam a mãe na cozinha. Nunca teve tempo para essas tarefas. Quando se casou, foi o marido quem a ensinou a fazer arroz.

Depois vieram os filhos, já na cidade. Foram sete. Criou cinco, ficou viúva e nos últimos anos se tornou quase filha dos filhos. Todos esse tempo sem anéis. Será que só agora, quando os braços já não ajudam a pentear o cabelo, ela descobriu a vaidade?

Fiquei pensando na infinidade de sensações que deixamos de viver porque não esbarramos com o acaso por aí. Um acaso que muda tudo ou apenas acrescenta um detalhe. Para minha avó, a casualidade foi a vendedora que sempre lhe mostrou calcinhas e sutiãs insistir para que experimentasse um anel de seu mostruário. E não é que ela gostou?

O que dá mais medo é que nessas coisas a gente não manda. Com o desconhecido se esbarra por descuido, não dá para sair procurando. E ele pode ser a graça que faltava em nossas vidas.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Wednesday, November 16, 2005

Distintas distinções

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Desculpe-me por começar com um provérbio, mas gosto desse particularmente desse pensamento, por ser tão simples quanto preciso. É este, perceba, o princípio básico da razão: comparar e distinguir uma coisa da outra.

Tenho lido sobre diferenças conceituais interessantes, como entre doença e mal-estar, dor e sofrimento, desejo e vontade. Um resuminho: doença, dor e desejo são fatos que brotam do corpo ou do inconsciente e podem fugir do nosso controle. Mal-estar, sofrimento e vontade, muitas vezes, a gente consegue administrar. E saber disso, perceber essa diferença, é o primeiro passo para consegui-lo.

Mas há outras tantas oposições...

Enxergo o amor à primeira vista, por exemplo, como mera auto-sugestão. Quando alguém se declara precipitadamente 'apaixonado' por mim (tá, não acontece muito), fico logo ofendido. Sinto-me usado, sabe? Como ousam me amar sem se dar ao trabalho de me conhecer? Não é amor, não. Ao menos, não por mim.

Nesses casos, a despeito do que a minha vaidade gostaria, tenho a nítida consciência de que sou apenas um instrumento para se dar vazão a um sentimento que não tem nada a ver comigo. É um amor intransitivo, que faz de mim recipiente. Descartável, claro.

Mais uma: não tenho religião porque, como o poeta, não me conformo em acreditar - quero saber. E, às vezes, fico irritado com quem acredita que sabe (e, na verdade, não sabe que apenas acredita). Ainda bem que logo me dou conta de que essa minha pretensa sabedoria é, preciso ser honesto, uma baita arrogância. Outra oposição, o importante é distinguir.

Há ainda a manjada oposição entre ser e parecer, que, 'aparentemente', nem requer maiores explicações. Intriga-me mais a diferença entre ser (condição definitiva) e estar (condição passageira) que muitos idiomas nem contemplam. Como não? Ser doente, estar doente; ser feliz, estar feliz... é tudo muitíssimo diferente. Se os budistas tiverem razão, com a sua teoria da impermanência, nada de fato é - tudo está. Ou esteve.

E, por fim, a fundamental diferença entre distinguir (sim, o tema da crônica) e rotular, simplificação estereotipada, preconceituosa e generalizante. Distingue-se para entender, rotula-se quando não se consegue - ou não se deseja - fazê-lo. Não se confunda.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Friday, November 11, 2005

De véu e grinalda

Outro dia fui ao casamento de uma amiga. De véu e grinalda, noivo esperando no altar - que no caso não era altar porque a cerimônia era judaica. No lugar do padre, o rabino, mas estava tudo lá: o bolo, as alianças, os futuros filhos, os almoços de domingo na casa dos pais, as férias na praia, a vida equilibrada de quem escolheu seguir a fórmula mágica da tradição. Eu, que nunca me imaginei em um vestido de noiva, senti uma pontinha de inveja.

Na hora não entendi: será que apesar de negar cultivo um desejo secreto de entrar na igreja ao som de Ave Maria? Os anos passam, a rebeldia da adolescência vai nos deixando, nos rendemos às convenções e vivemos “como nossos pais”, seria isso? Passei alguns dias encucada.

Foi quando me lembrei de uma outra idéia que dia desses amanheceu comigo. Pensei que a vida teria sido muito melhor se tivesse nascido na roça. Nada disso de escolher profissão e o rumo certo para ser feliz. Eu seria uma “dona gorda”, que acordaria bem cedinho com a única preocupação de fazer a rosca e o pão de queijo e já deixar o fogão à lenha aceso para o banho quente de serpentina. Tudo bem simples, com o alívio de ter nascido com o destino traçado e não precisar questionar o próprio rumo.

Desvendado o segredo. Essa estranha sensação de de repente achar que combino com vestido de noiva é só uma ponta de preguiça de ter que criar caminhos sem modelos testados para ser um pouquinho do que quero. A confusão da vida é tanta que às vezes a gente até se embaralha e confunde a vontade de sossego com padrões que não nos servem.


E, pensando bem, essa visão de caminhos prontos é muito idealizada. A dona roceira deve ter outras preocupações e a benção do padre não é a entrega de um roteiro fechado, com todas as cenas já escritas.

Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, November 06, 2005

O beijo roubado

Eu me lembro com carinho do meu primeiro beijaço. Há dois anos, estava de visita em São Paulo quando o movimento gay organizou o protesto num shopping center. Era uma espécie de retaliação positiva à censura que um casal sofrera dias antes ­- os rapazes se beijaram na escada rolante.

Fui assistir ao protesto, claro. Uma questão de cidadania, como reunião de condomínio - só que legal. Até o shopping aderiu: contratou um DJ para animar o evento. Lembro-me da música que tocava quando cheguei (com suave taquicardia) à praça de alimentação. “Tem que valer, valer viver/ Tem que viver pra valer...”

As câmeras de tevê estavam posicionadas, os casais também. Quinze ou vinte deles. Quando tudo começou, era preciso esticar o pescoço para ver alguma coisa. E eu vi. Beijo gay, beijo lésbico, beijo hétero, beijos plurais em rede nacional de televisão.

Só participei como observador... Mas estava lá e era como se aqueles beijos fossem todos meus. Sempre prometi a mim mesmo que o mundo ficaria melhor. Hoje, bem ou mal, os negros são livres, as mulheres votam. Gays hão de poder se beijar sem se cercar de paredes.

Pouco depois, eu me mudei para São Paulo. E, no bairro onde moro, gays até podem, com alguma coragem. E muitos têm. Mãos dadas, beijinhos, afagos - as calçadas são lindas aqui. Eu só não sei se devo passar reto, emitindo a mensagem de que acho tudo absolutamente normal, ou se devo sorrir, para demonstrar a minha franca e desnecessária aprovação. Indeciso, acabo passando reto e sorrindo, sim, só que por dentro.

Aos poucos, assisto ao que chamo de lenta e progressiva multiplicação dos beijos (gays). Primeiro, nos guetos; depois, no cinema alternativo; em seguida, na tevê a cabo e nas ruas de determinados bairros das grandes cidades - como o meu!

Mas o beijo que ia rolar no último capítulo da novela - na tevê aberta! -, uau, isso seria inédito. E ser inédito é o primeiro passo para ser banal, olha que máximo. Tudo o que eu queria é passar pelos casais da vizinhança (que eu adoro, são lindos) e não percebê-los.

Na sexta, na hora da novela, lá estava eu, entre queridos, em frente à tevê, com a minha suave taquicardia. O coração acelerou-se em vão: censuraram o beijo gay. Assisti até o final, pensado que o corte abrupto, bem no momento em que os rostos apaixonados se aproximavam, fosse um mero recurso dramático para prolongar a expectativa.

Mas escreveram ‘fim’ sem terminar.

Então, eu fui para a cama pesaroso, nutrindo uma inusitada autopiedade, como se o beijo que não houve na ficção fosse em mim. Como se eu tivesse caprichado no perfume, ensaiado falas diante do espelho, feito joguinhos de olhares e sorrisos... e levado um belo fora.

Fiquei triste também pelos pedestres corajosos das redondezas. Eles mereciam, poxa. E ainda mais pelos que moram em outros lugares e circulam a uma distância segura de seus amados ou escondidos dentro de si. Triste por um mundo em que tantos idiotas têm poder de decisão. Entrariam para a história; preferiram adiá-la. É tão cômodo ser imbecil...

Queria entender, mas tenho medo de tentar fazê-lo e sentir raiva. Mais raiva.

Por sorte, naquela mesma noite, houve beijos nada fictícios. Cercados de paredes, é verdade. Mas com visibilidade suficiente, do lado de dentro, para renovar minha esperança. Mesmo que o mundo não queira nos enxergar, eu faço questão de vê-lo melhor.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)