Vermelho Ferrari
Minha avó tem 82 anos e vem, pobrezinha, acompanhando sem resignação a morte de primos, amigos, vizinhos - colegas de geração. Nos últimos anos, o tempo leva um a um. Como num filme de suspense, ela cogita, entre os octogenários sobreviventes, quem será a próxima vítima.
Na rua onde mora, a morte seguia mão-única como o fluxo dos carros, da esquerda para a direita. Vovó chegou a brincar com seu João, o vizinho da esquerda, que ele partiria antes dela. Mas a morte, fingindo que os esqueceu, pulou os dois e levou a vizinha da esquina.
Fico intrigado com esse sentimento contraditório de quem perde uma pessoa querida da mesma geração, uma tristeza aliviada. Como se a morte de um análogo representasse uma nova chance. Um renascimento.
Só que, a cada velório, enterro, missa de sétimo dia, vovó renasce com mais medo. É dessas que respondem a verdade quando alguém pergunta como vai. Tem labirintite, osteoporose, diabete. E mais os efeitos colaterais dos medicamentos. E da interação entre eles. E dos efeitos colaterais dos medicamentos paliativos contra os efeitos colaterais.
Vovó também tem solidão. Saudade dos filhos que foram morar longe. Dos netos. Dos bisnetos cujo crescimento acompanha em recortes: Natal, Ano Novo, Dia das Mães, aniversário. O pequeno não andava na Páscoa e já corre em dezembro, como se tivesse sido sempre assim.
Eu me lembro de quando ela pintou os cabelos pela primeira vez. Tinha sessenta e poucos. E foi engraçado porque ficou dez anos mais jovem do que parecia nas fotos de dez anos antes. Aí uma tia brincou de enganá-la. Comprou um batom: “É clarinho, mãe.” E era, de fato, nos primeiros minutos. Depois, ficava vermelho Ferrari. Todo mundo adorou saber que o efeito durava 24 horas. Até vovó, posso apostar.
Foi a única vez que usou aquele batom. Achava que estava velha demais. Já se passaram uns 20 anos - um quarto do que viveu até hoje, né? A morte finge que a esquece, mas ela não se esquece da morte.
Leandro Quintanilha
(minicertezas@ibest.com.br)
P.S.: Desculpa, Paty. Achei que minha avozinha também merecia uma crônica. ;-)
