Minicertezas

Tuesday, October 04, 2005

Pique, trabalho e cinema

Sempre fui tímida. Quando era criança, demorava a me entregar às brincadeiras. Primeiro ficava só olhando, fingia não ter vontade de pular corda ou ânimo de correr no pique-esconde para ocultar a falta de coragem de entrar no meio dos outros meninos. Depois chegava mais perto. Dava dois pulinhos, só para ver como era, ou sugeria lugares de esconderijo. Por fim, me entregava. Mas aí era a hora de ir embora – logo no melhor da brincadeira! – e eu implorava aos meus pais por mais 15 minutinhos.

Nem sei do que tinha medo. Talvez de pisar na corda e tropeçar logo no primeiro pulo ou de não encontrar um bom refúgio a tempo. Outras vezes o time estava completo e eu não queria atrapalhar. Ou me achava pequena demais – e depois grande demais - para mergulhar na piscina e disputar os seis metros estilo ‘cachorrinho’. Essas preocupações bobas, que se resolviam sem nenhum mistério na hora em que eu decidia participar de verdade.

Outro dia me peguei espiando meninos, garotos adultos que nem conheço, e tive uma vontade enorme de estar entre eles. É que quando crescemos, trocamos a corda pelo namorado, o pique pelo trabalho. Mas, no fundo, tudo o que procuramos é um meio de viver com a sensação de estar no melhor da brincadeira. E de novo eu, com os velhos medos, resistia a me entregar.

Ficava pelas beiradas. Fazendo um trabalho mais ou menos parecido com o que eu queria fazer. Um próximo meio distante, mas sem riscos de tropeçar nas contas no final do mês.

Passei meses me remoendo. Pesando os prós e os contras de deixar meu cantinho seguro e tentar me juntar aos garotos adultos que faziam o que eu queria estar fazendo. Perdi o sono, tentei encontrar motivos para o sim ou me convencer do não. Até que um dia quis ir ao cinema e não dava por causa de meu horário no trabalho. Deixei o emprego. Racional assim mesmo, como são nossos medos – e nossos sonhos.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)