Minicertezas

Tuesday, September 27, 2005

Ao acaso

Saí da casa dos meus pais. No trabalho, o autoritarismo acabou. Nem tenho religião... Poderia dizer que mando em mim, se eu me obedecesse.

Quando era adolescente, desisti de estudar num colégio famoso porque se chamava Disciplina. Palavra feia, especialmente para uma geração pós-ditadura. Mais velho, fiz promessas para deuses e santos – nos quais já não cria – só para escapar do serviço militar. Deu certo. E, veja só: reforcei a minha fé no acaso. A casualidade me encanta, só pode ter sido ela a minha heroína. É o oposto da disciplina.

Oficialmente, fui dispensado por ter pés chatos (sem complexos). Mas eles são planos por conta combinação aleatória de genes de duas famílias com dezenas de pares de pés normais. Não posso calçar coturnos, que beleza. O acaso me livrou da disciplina.


Eu não tenho seguro de vida, mas aposto na Mega-Sena. Por causa da minha fé no acaso. Ele contraria as regras (a disciplina) e premia apostadores para que enriqueçam longe dos rigores do trabalho (a disciplina). Acredito no improvável.

Preciso admitir que, às vezes, até gostaria de ter mais disciplina para atividades triviais, como a musculação. Mas sei que aceitaria de bom grado qualquer hipertrofia muscular que por ventura brotasse do meu sedentarismo. Reclamo também da falta de disciplina para escrever, outra bobagem - a minha inspiração vem do ócio.

Pode parecer, mas isto aqui não é uma apologia ao desleixo, não. Porque, no fim, vira auto-abandono, coisa muito triste. Faço planos, claro, e me esforço para cumpri-los. Mas, se há sorvete de chocolate branco no freezer, eu, digamos, flexibilizo a dieta. E viva o metabolismo rápido. Que o acaso impeça a punição do prazer. E que o sacrifício recuse a recompensa.

Porque, se a disciplina é justa, o acaso faz melhor: opta pela generosidade. Acho uma mesquinharia a vida exigir merecimento.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@blogspot.com)

Sunday, September 18, 2005

Aqui e em algum outro lugar

Acabo de aprender um termo curioso: presenteísmo. Que significa estar, não estando. Estar de corpo presente - e só com o corpo presente. Puxa, a identificação foi imediata. Meu corpo já esteve em muitos lugares aos quais a minha alma se recusou a comparecer. Agora, por exemplo, estou (não estando) no plantão de domingo. A minha função aqui é esperar até a meia-noite para ver se algo acontece. Ou esperar até lá, torcendo para que não aconteça nada.

Já estive (sem estar) na aula de francês. O professor, um belga simpaticíssimo, gostava muito do livro, mas eu queria ir para França. Quando era criança, nunca estava nos estádios de futebol aos quais ia com meu pai e meus primos. Um dia alguém me perguntou o placar e eu só sabia sobre o desenho das nuvens. Por sorte, um primo, concentrado na pipoca, não sabia nem quem estava jogando. A gente ia para acompanhar. A família, não a partida. A gente ia sem a própria companhia.

Estive não estando em vários natais, aniversários, casamentos e batizados. Não compareci até a alguns namoricos. Entre os amigos, a distração parece ser a minha característica que mais marca presença. Moro em São Paulo, mas a alma está de mudança para o Rio. Já estive sem estar em looongas viagens de ônibus, chegando muito antes de mim ao destino. Ou ficando no ponto de partida.

Quase não estive na minha adolescência, o futuro parecia mais acolhedor. E agora fico tentando me trazer de volta da infância.

Li uma vez (e concordei com) uma frase mais ou menos assim: a falta de concentração cansa mais. É verdade (já pensou nisso?), porque estar não estando é estar em ao menos dois lugares ao mesmo tempo. Exaustivo.

Os budistas falam muito sobre manter o foco no presente. Faz sentido: vive-se aquilo em que se presta atenção. A gente se ausenta e a vida vai passando. "Saiu para o vento, perdeu o assento", diz o ditado. Ausente, a gente perde o assento das horas. Tenho de aprender a fazer companhia para o meu corpo - ou fazer com que ele saia para me encontrar.

E se a minha alma viajasse sozinha? Bem, pelo que entendo, isso só aconteceria com a morte. E não tenho certeza se, nesta nova condição, eu saberia aonde ir. Mas talvez fosse divertido: pela primeira vez, o contrário. Não estar, estando.


Leandro Quintanilha
(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, September 11, 2005

Quase do bem

Quero publicar aqui um manifesto contra os sem-noção.

Gosto dessa expressão assim, sem-noção e ponto. Intransitiva. Acho que diz mais não dizendo exatamente o quê. Mas, okay, em prol da melhor compreensão do assunto, exploremos o que poderia vir depois de noção (ou com ela). Sem noção do quê? Do que diz, de como se comporta, do que faz ou deveria. Simplifico: sem noção de si perante o outro. Simplifico mais: sem noção do outro.

O sem-noção é um egoísta que se esconde atrás de uma conveniente característica de personalidade – o despercebimento. Então, ele não percebe que o comentário ofende, de que já está na hora de devolver aquele CD, de que seria gentil se oferecer para dividir a conta. Ah, ele é tão distraído.

Assim ele goza a vida, desfrutando de pequenas vantagens consentidas por uma espécie de silêncio íntimo. Sim, porque não comenta suas faltas nem consigo mesmo. O sem-noção é uma empresa sem jornalzinho interno, sem memorando. Sem fofoca! Tudo acontece e ele não fica sabendo, pobrezinho.

E, mesmo quando alguém o avisa, o sem-noção não entende. Ei, volte aqui, veja o que você fez! Ih, desista, não adianta... Foi um mal-entendido, ele não sabia.

A minha teoria óbvia é a de que o sem-noção sabe. Ah, ele sabe. Apenas não desenvolve a questão. Melhor não lidar com o fato de que está agindo como um babaca. Com o filtro oportuno do despercebimento, não vê o sutil nem o retumbante. Olha que sorte!

E milhões de sem-noção juntos são capazes de olhar muito mais sem enxergar nadinha. A escravidão na América, os massacres na África, os extermínios de guerra em todo lugar. Eis o melhor superpoder, o de simplesmente não ver. A visão de raio-X ao contrário. O sem-noção não enxerga miséria, injustiça, violência. Quanto ganha a empregada? Onde fica a Ruanda? É só descer as pálpebras que o mundo fica lindo.

O sem-noção é um vilão sem coragem. Não mata, não rouba, não tortura e, portanto, não se culpa. Seria um escroto, não fosse a falta de iniciativa.

Mas poderia ser também um cara até bem bacana, sabe? Não fosse esse mesmo motivo.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)