Ao acaso
Saí da casa dos meus pais. No trabalho, o autoritarismo acabou. Nem tenho religião... Poderia dizer que mando em mim, se eu me obedecesse.
Quando era adolescente, desisti de estudar num colégio famoso porque se chamava Disciplina. Palavra feia, especialmente para uma geração pós-ditadura. Mais velho, fiz promessas para deuses e santos – nos quais já não cria – só para escapar do serviço militar. Deu certo. E, veja só: reforcei a minha fé no acaso. A casualidade me encanta, só pode ter sido ela a minha heroína. É o oposto da disciplina.
Oficialmente, fui dispensado por ter pés chatos (sem complexos). Mas eles são planos por conta combinação aleatória de genes de duas famílias com dezenas de pares de pés normais. Não posso calçar coturnos, que beleza. O acaso me livrou da disciplina.
Eu não tenho seguro de vida, mas aposto na Mega-Sena. Por causa da minha fé no acaso. Ele contraria as regras (a disciplina) e premia apostadores para que enriqueçam longe dos rigores do trabalho (a disciplina). Acredito no improvável.
Preciso admitir que, às vezes, até gostaria de ter mais disciplina para atividades triviais, como a musculação. Mas sei que aceitaria de bom grado qualquer hipertrofia muscular que por ventura brotasse do meu sedentarismo. Reclamo também da falta de disciplina para escrever, outra bobagem - a minha inspiração vem do ócio.
Pode parecer, mas isto aqui não é uma apologia ao desleixo, não. Porque, no fim, vira auto-abandono, coisa muito triste. Faço planos, claro, e me esforço para cumpri-los. Mas, se há sorvete de chocolate branco no freezer, eu, digamos, flexibilizo a dieta. E viva o metabolismo rápido. Que o acaso impeça a punição do prazer. E que o sacrifício recuse a recompensa.
Porque, se a disciplina é justa, o acaso faz melhor: opta pela generosidade. Acho uma mesquinharia a vida exigir merecimento.
Leandro Quintanilha
(minicertezas@blogspot.com)
