Minicertezas

Saturday, August 27, 2005

Pequenas armadilhas

Armamos, para nós mesmos, pequenas armadilhas que acabam seqüestrando o nosso futuro. O namorado mais ou menos, que a gente se acomoda e casa com ele. O curso que se descobre chato no meio da faculdade, mas que se termina mesmo assim. Um empreguinho besta para pagar as contas e, quando se vê, já se é refém do salário. Depois vem o dilema: como escapar dessa?

Montamos nossa rotina no meio desse emaranhado de escolhas feitas mais ou menos ao acaso e depois parece impossível desistir de uma delas porque trocar um graveto faz desabar toda a estrutura. Aí a gente se conforma e vai vivendo assim mesmo. Bye, bye qualquer sonho.

Deve acontecer com todo mundo, é difícil escapar ileso. Os dias vão passando, há de se andar em alguma direção e a gente acaba empilhando nossos gravetos. O diabo é que existe o pensamento. Essa tormenta que nos faz questionar se vale ou não a pena manter a estrutura de pé.

Às vezes ele nos inquieta. Para azar ou sorte.

Quando nos rendemos ao vilão e desmontamos tudo, depois do caos, precisamos reconstruir de alguma forma. Viver mais um pouquinho, de uma outra maneira. E assim a gente vai multiplicando as possibilidades até chegar àquela rotina mágica, que não se sabe se existe mesmo - pelo menos eu, me recuso a duvidar – em que a existência faz sentido. Quando a gente deixa de mastigar as horas como folhas de boldo e se quer devorá-las como uma sobremesa.


Patrícia Pereira


(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, August 23, 2005

No lugar certo

O minuto dura 60 segundos porque 60 era um número ‘redondo’ para os sumérios (salvo engano), aprendi isso num jogo de conhecimentos gerais. É que eles acreditavam que o ano somava 360 dias (por pouco, não?), explicou-me o namorado de uma amiga, que é físico e estudou história da ciência na faculdade. Sim, é claro que ele ganhou a partida.

E eu fiquei pensando sobre a medição do tempo, nas unidades que foram estabelecidas por convenção, para delimitar o giro da Terra por seu próprio eixo, um dia, e o que o planeta faz em torno do Sol, 365 e seis horas – não podia ser uma conta exata? Talvez o tempo queira nos dizer alguma coisa e não ouvimos, ocupados que estamos na tentativa de controlá-lo. A propósito, você sabe que horas são? Aposto que tem alguma idéia.

Neste ano, muita coisa foi publicada sobre Einstein, que, há um século, provou que o tempo, unidade historicamente tida como absoluta, é relativo. Eu sempre tive dificuldade de entender a teoria da relatividade e, só há alguns meses, comecei a ter noção do que se trata, depois de ler uma matéria superdidática sobre o assunto. Num suplemento infantil.

É mais ou menos assim (ou talvez não seja): uma criança que percorre um trecho x a uma velocidade y sobre o solo da Terra fará a mesma tarefa (pelo mesmo trecho x à mesma velocidade y) num tempo diferente sobre o solo da Lua, ainda que se ignore a diferença de gravidade.

Conclusão: o tempo varia quando se muda o lugar. Einstein, queira perdoar a simplificação.

Numa perspectiva emocional, pode-se dizer que o tempo é, portanto, diferente em mim do que é em você. Porque cada pessoa ocupa um lugar no espaço. Bem, isso não consta nos estudos do físico judeu: a conclusão é fundamentada nos argumentos irrefutáveis da minha precipitação. Mas... não deixe de me acompanhar, sim?

É por isso que o tempo passa rápido quando nos divertimos (ou estamos atrasados) e demora quando estamos entediados (ou na expectativa do fim de semana): porque varia o lugar em nós, terrenos mal-loteados de paz e ansiedade.

A contagem do tempo sustenta-se sobre a frágil verdade das convenções. Quanto tempo dura um minuto? 60 segundos, sendo demais ou insuficiente. Poderiam ser dois ou 740. Cronômetros são inúteis. Relativamente inúteis: servem para coisas corriqueiras, como o forno de microondas, né?

No mais, tempo não se conta e só serve para viver.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

P.S.: Okay, também vale contar o tempo se for para celebrar. O Mini faz seu primeiro aniversário hoje. Façamos pedidos.

Friday, August 19, 2005

Remexendo a caixola

Retirei do baú (do quartinho de bagunças, mais precisamente) meus velhos cadernos do 3º ano. De novo. O colégio se foi, mas nunca consegui abandoná-los. Sempre tive aquela vaga impressão, que alguns chamam de sexto sentido, de que ainda me seriam úteis. Pois é, decidi enfrentar outro vestibular.

Um dia soube de cor cada uma das fórmulas e frases escritas ali - no meu caso, dois dias, ou melhor, dois vestibulares. Onde foi parar tudo?

Folheando o caderno, entre "alotropias" e "heterótrofos", descobri que minha cabeça é uma espécie de caixinha onde fui depositando fórmulas, definições, palavras estranhas. Só que depois do vestibular alguém sacudiu e embaralhou tudo.

Estudar de novo naqueles velhos cadernos do segundo grau é como ir colocando tudo na prateleira certa. Me lembro que existe o "PiViTi=PoVoTo", mas quando mesmo é que se usa isso? Também me lembro que "Cabral Não Pode Ouvir Seu Sermão Falando Claramente Bobeira e Idiotices", mas seriam esses os ametais ou os alcalinos terrosos?

Estudar para o vestibular, para quem é reincidente, tem um cheirinho de vida nova misturado a vida velha. É um tempo perdido lendo coisas repetidas, decorando o que já se soube. Mas é também a expectativa de abrir as portas de um mundo novo e começar do zero.

Um gosto que quem faz o vestibular pela primeira vez sente, mas de surpresa, e percebe só depois que acabou.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, August 14, 2005

Problemático

E o problema resolveu-se por si só, puf!, assim de repente. Era um problemão (hum, agora não sei mais se valia o aumentativo), que estava emperrando a minha vida e eu não sabia como resolver. O problema em questão não vem ao caso (perdão, não posso), mas isso nem é importante: o problema agora é que aquele velho problema não existe mais.

Se o meu problema foi resolvido, então qual é o meu problema? Problema nenhum, esse é o problema, entende?

Bem, vou tentar ser mais didático. Começo deixando claro que estou feliz por não ter mais de conviver com aquela situação. Problemática. Não sou masoquista, este problema eu não tenho. Só que o fim do meu problema gerou duas situações novas, ou melhor, dois probleminhas, com os quais tenho agora de lidar.

O primeiro, não tem jeito, vou ter de superar ­­– é insolúvel. Isso de o problema ter-se resolvido sozinho.

Sim, porque eu imaginava resolvê-lo eu mesmo, pessoalmente. Do meu jeito (okay, que ainda estava para descobrir qual seria). O fato é que eu alimentava uma fantasia sobre como assumiria o controle da situação. Como daria a volta por cima. Já tinha frases ensaiadas... Era problema meu!

Mas dei bobeira e o problema não esperou. Problemas podem demorar, mas não esperam. O problema resolveu-se sozinho (puf!), nem aí para os meus planos. A última palavra foi dele, do problema.

Problema, volte aqui!, aonde o senhor pensa que vai?, quase disse na hora. Mas ele tomou a iniciativa e resolveu-se sem me consultar. Engoli meu orgulho: o mais importante era que ele desaparecesse, não?

Depois, dei-me conta: o problema foi embora levando consigo a desculpa (à qual vinha me apegando tanto) de ter um problema. Um problemão. Eis o tal segundo probleminha gerado pela (auto)resolução do meu problema-matriz.

Muito complicado?

Se você ainda está se perguntando de que raio de problema estou falando, perdão, não posso. E isso nem tem importância, acredite, porque o que quero dizer é justamente isso: os problemas não têm importância.

Os problemas cotidianos (o videogame que os pais não dão, o professor carrasco, a paixão não-correspondida, o emprego que falta ou não satisfaz...) são desculpas que a gente usa para não lidar diretamente o problema maior: o que fazer com a vida. O que fazer do que se pode fazer.

A própria vida é um problemão (ah-rá, aqui o aumentativo cabe bem). E, para ela, só existe uma boa solução, que é invariavelmente provisória: vivê-la, com atenção, coragem e desprendimento.

Porque a única solução definitiva (puf!) para o problema da vida a gente sabe qual é, sabe que não controla e sabe que não quer.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, August 09, 2005

Ao ponto

‘Ou me amam, ou me odeiam’, já ouvi muita gente dizer, com uma pontinha de orgulho até. Pois eu, que não tenho gênio forte (e digo isso com uma pontinha de orgulho até), afirmo: a maioria das pessoas que me conhecem me acha ­– ou não – simpático. Sem grandes arrebatamentos. Prefiro assim.

Aquele discurso batido de ‘eu sou assim, o mundo que se adapte’ sempre me soou arrogante. Justo eu que sempre defendi vorazmente o amor essencial, o amor-próprio. Mas tenho essa resistência à intensidade. Forte, só capuccino. E, mesmo ele, nem com açúcar demais nem de menos.

Também não sou afeito a tragédias gregas nem comédias rasgadas. Que tal uma comédia dramática? Um drama cômico? Prefiro. Acho que o exagero transborda. E, por dentro, fica vazio. Exagero é falta.

Nunca desejei um amor bandido. Sempre busquei (e consegui!) a sorte de um amor tranqüilo, atendendo à sugestão daquela música. Que não é bossa nem rock. Nada de brigas provisoriamente definitivas e reconciliações provisoriamente apaixonadas.

Eu não quero explodir, só inflar.

Nem crente nem ateu: agnóstico. Gosto dos médias-metragens. Pena que o formato não vinga...

Não quero celebridade, mas, por favor, lembre-se do meu nome nas festas: o anonimato também não me interessa. Quero ser eu e um pouco dos outros. Nem só um nem só outros. Como os budistas, prefiro o caminho do meio e também sigo preferindo um monte de caminhos que budistas talvez não aprovassem.

Digo não para a ingenuidade, não para o cinismo. Sim, para um pouquinho de malícia.

Não preciso viver intensamente. Também não pretendo desistir da vida. Nem açúcar demais nem de menos. Quero viver com sutileza.


Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

Friday, August 05, 2005

Minha cota no "mensalão"

Uma amiga não pode mais ouvir a frase "pela ordem, deputado. Pela ordem". Sua mesa no trabalho fica atrás da televisão da editora de política. Ouviu (e não viu) todos os depoimentos da CPI do "mensalão". Não dá para escapar ileso. Em algum momento você vai acabar se deparando com ele.

Pois é, e foi lá, no meu programa preferido, o Saia Justa, que a CPI fez os maiores estragos. Explico. Rendeu dois dias de temas machistas e certa antipatia por uma das apresentadoras.

(A Mônica Waldvogel sugeriu que se discutisse por que as mulheres sempre descumprem pactos e traem a palavra dada e os homens não. O gancho? Elas, as mulheres de acusados pela CPI que foram convocadas para depor. Também colocaram em pauta o visual das moças com algum envolvimento nessa história toda.)


Até meu passatempo mais recorrente daquelas tardes monótonas, em que não há trabalho mas é preciso cumprir o expediente, foi infestado. Todos - absolutamente todos - os colunistas do site NoMínimo só falam disso.

Minha tia assiste como seriado. Não perde um depoimento e adora a encenação do Roberto Jefferson. Toda vez que me encontra, comenta sobre os últimos capítulos e quer que eu opine.

O Mix Brasil criou um ranking para eleger os acusados (e acusadores) mais bonitos. Ah, aí a história começou a ficar interessante.

Como não dá para fugir, a solução é essa. Encontrar no meio da chatice do tema um lado que se encaixe em nosso mundo. Vale para o "mensalão" e, por que não, para tudo mais que nos atormenta.

Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, August 01, 2005

Hora desmarcada

Sempre ouvi que, tempo para fazer o que se quer, a gente sempre arruma. Bem, isso funciona para ver tevê.

Tenho tentado encaixar um horário para escrever na minha programação diária. Sim, escrevo todo dia no trabalho, mas isso implica escrever coisas de trabalho ­­- o que significa muitas vezes escrever com a inspiração de outrem ou (hum, isto é terrível) sem nenhuma.

Quero um horário para escrever à toa, que é sempre o propósito mais definitivo. Um horário para escrever/pensar sobre a vida, sem diagramação preestabelecida nem prazo de entrega. Mesmo porque os fatos são sempre melhor retratados em crônica que em reportagens. Creio eu.


Porque a vida real precisa às vezes de um toque de ficção para acentuar seu realismo (ainda que inventado).

Mas me pagam para escrever reportagens e, por isso, tenho de arranjar tempo para escrever o que preciso fora do expediente. O problema é que tenho uma noção vaga de horas vagas. Achava que serviam para o repouso, os afazeres domésticos, as pendências burocráticas, os cuidados com o corpo, a distração dos sentidos e, principalmente, a expressão - com absorção - de afeto.

Esse meu ócio anda muito compromissado.

Agora, tenho de encaixar um horário para escrever nessa grade congestionada. O problema é que necessito que algumas das horas vagas permaneçam exatamente assim, livres, para eu me inspirar. Então, são dois compromissos extras (mas imprescindíveis): inspirar-me e escrever.

Li em algum lugar que, para escrever bem, é preciso organização e disciplina. Concordo. Apenas acrescentaria mais dois itens: confusão e rebeldia.


E, ah, mais um, de improviso: não exagerar tanto assim nas antíteses.

Todo o problema é que o meu dia (o de todo mundo é mesmo assim?) tem apenas 24 horas, pouquíssimo tempo demais.


E eu sou só um e múltiplo e nenhum. E me atraso.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)