Pequenas armadilhas
Armamos, para nós mesmos, pequenas armadilhas que acabam seqüestrando o nosso futuro. O namorado mais ou menos, que a gente se acomoda e casa com ele. O curso que se descobre chato no meio da faculdade, mas que se termina mesmo assim. Um empreguinho besta para pagar as contas e, quando se vê, já se é refém do salário. Depois vem o dilema: como escapar dessa?
Montamos nossa rotina no meio desse emaranhado de escolhas feitas mais ou menos ao acaso e depois parece impossível desistir de uma delas porque trocar um graveto faz desabar toda a estrutura. Aí a gente se conforma e vai vivendo assim mesmo. Bye, bye qualquer sonho.
Deve acontecer com todo mundo, é difícil escapar ileso. Os dias vão passando, há de se andar em alguma direção e a gente acaba empilhando nossos gravetos. O diabo é que existe o pensamento. Essa tormenta que nos faz questionar se vale ou não a pena manter a estrutura de pé.
Às vezes ele nos inquieta. Para azar ou sorte.
Quando nos rendemos ao vilão e desmontamos tudo, depois do caos, precisamos reconstruir de alguma forma. Viver mais um pouquinho, de uma outra maneira. E assim a gente vai multiplicando as possibilidades até chegar àquela rotina mágica, que não se sabe se existe mesmo - pelo menos eu, me recuso a duvidar – em que a existência faz sentido. Quando a gente deixa de mastigar as horas como folhas de boldo e se quer devorá-las como uma sobremesa.
Patrícia Pereira
(minicertezas@ibest.com.br)
