Minicertezas

Friday, July 22, 2005

Mulherzinha demais

Procurando entre pilhas de caderno na papelaria encontrei a série “menininhas”. Eram quatro modelos, em todos uma garota de rosto redondo, olhos pequenos e boca a sorrir em um risco ocupava o centro de uma capa colorida. O lilás foi o que mais me atraiu, pela cor de fundo. Mas não consegui comprá-lo. A garota era muito mulherzinha.

Fiquei com o segundo preferido. A menina, mais descabelada, rodava bambolê. O caderno, para escrever meus textos, tinha de ser parecido comigo. Não conseguiria deixar aquela garota de salto alto e bolsinha de mão ouvir meus pensamentos.

Foi na papelaria que me caiu a ficha. Sempre tive rejeição a esses ícones femininos. Não gosto de maquiagem, me sinto estranha de saia, acho a Hello Kite (como se escreve?) uma bobagem e, desde criança arrancava da cabeça as fitinhas. Também prefiro os corpos magrelos, não pela ditadura da moda, mas porque dão uma certa neutralidade. Os mulherões são, na verdade, muito mulherzinhas.

E que mal há nisso, em ser mulherzinha? Não sei. Um dia fiz mechas loiras no cabelo. Odiei. Até que ficou bonito, mas me senti muito exposta. Parece que perdi aquela discrição que me permitia circular sem se notada enquanto observava o mundo. Vai mais ou menos por aí. Esses apetrechos todos me desarmam – basta uma argola ou (que terror!) um caderno.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, July 18, 2005

Segunda-feira

Hoje é meu último dia de férias e, por mim, tudo bem.

Há um pouquinho mais de um mês, assisti a uma peça por causa do título: ‘Parem de falar mal da rotina’, da poeta Elisa Lucinda. Ela propunha algo de que gosto muito, libertação – não da rotina, mas do pressuposto de que cotidiano é um coletivo de dias enfadonhos. Não precisa ser.

Meus amigos e eu voltamos para casa anotando mentalmente os conselhos da poeta. Todo dia pode ser uma estréia, todo dia pode ser uma estréia, dizia ela há tantos meses em cartaz.

Eu me deixo facilmente influenciar pelo otimismo alheio. E, obviamente, tendo a acreditar que isso é bom. Tem sido. Comecei a prestar atenção na chuva (ou no sol), na conversa das pessoas no metrô, como foi sugerido. Às vezes, um contratempo abalava a minha concentração, mas eu estava ‘presente’ na maior parte do presente, como diriam os budistas. Presente.

Aos poucos, o medo dos dias foi diminuindo. O medo das broncas e das contas. Dias de semana passaram a se tornar o que na verdade sempre foram: dias da vida. Mesmo os plantões de fim de semana!

E, de repente, acordar passou a ser um ótimo motivo para... acordar.

Aí eu entrei em férias e me afastei bruscamente da rotina, a ex-arquiinimiga com quem acabara de fazer as pazes. Viajei, matei e senti saudade, conheci gente nova para sentir mais saudade. Aí voltou o medo. Como faria para amarrar o tempo no pé da cama?

Férias são um tipo de liberdade parcial, uma espécie de regime semi-aberto. Você pode sair, mas tem de voltar. A boa notícia é que com o fim das férias inevitavelmente acaba o medo do fim das férias. Medo de perder a gente sente, mas medo do que já foi perdido, nostalgia, é tolice demais.

As férias acabaram, mas não vou falar mal da rotina, não. Amanhã é segunda-feira, dia de estréia: vou acordar mais cedo. Por mim, tudo bem.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)