Mulherzinha demais
Procurando entre pilhas de caderno na papelaria encontrei a série “menininhas”. Eram quatro modelos, em todos uma garota de rosto redondo, olhos pequenos e boca a sorrir em um risco ocupava o centro de uma capa colorida. O lilás foi o que mais me atraiu, pela cor de fundo. Mas não consegui comprá-lo. A garota era muito mulherzinha.
Fiquei com o segundo preferido. A menina, mais descabelada, rodava bambolê. O caderno, para escrever meus textos, tinha de ser parecido comigo. Não conseguiria deixar aquela garota de salto alto e bolsinha de mão ouvir meus pensamentos.
Foi na papelaria que me caiu a ficha. Sempre tive rejeição a esses ícones femininos. Não gosto de maquiagem, me sinto estranha de saia, acho a Hello Kite (como se escreve?) uma bobagem e, desde criança arrancava da cabeça as fitinhas. Também prefiro os corpos magrelos, não pela ditadura da moda, mas porque dão uma certa neutralidade. Os mulherões são, na verdade, muito mulherzinhas.
E que mal há nisso, em ser mulherzinha? Não sei. Um dia fiz mechas loiras no cabelo. Odiei. Até que ficou bonito, mas me senti muito exposta. Parece que perdi aquela discrição que me permitia circular sem se notada enquanto observava o mundo. Vai mais ou menos por aí. Esses apetrechos todos me desarmam – basta uma argola ou (que terror!) um caderno.
Patrícia Pereira
(minicertezas@ibest.com.br)
