Minicertezas

Sunday, May 29, 2005

Matinal

De manhã, falta tempo; à noite, inspiração. Percebi que os temas expiram no correr da tarde. Temas para crônicas. Durante o banho matinal, tantas idéias... No caminho para o trabalho, personagens, sinopses, argumentos.

Um dos dois: devo ser condescendente demais antes do meio-dia ou especialmente amargo depois que o sol se põe. À noite, diante do computador, toda a criação perde importância. Qual era mesmo aquela grande sacada?

Tenho tentado decifrar esse fenômeno. Talvez eu devesse sair de manhã com um bloquinho à mão. Mas vou de ônibus para o trabalho e minha letra já é pouquíssimo legível em terra firme. Uso a memória como bloquinho, o que, tenho percebido, não garante melhor legibilidade.

Bem, eu até me lembro de algumas idéias à noite, só não recordo mais por que eram importantes. Às vezes, persisto e escrevo sobre temas vencidos, passados, estragados. Porque só à noite eu, que vivo de escrever, posso discorrer sobre pautas próprias.

Mas a minha inspiração não tem senso de oportunidade. Não está nem aí para a programação estabelecida. Sabe que eu tenho meus compromissos, mas não quer se comprometer. Vem e vai (de manhã), a despeito de mim.

Eu é que devo me submeter. Acordar mais cedo e me atrasar, o que for necessário. Porque, se a inspiração é uma urgência, adiar é desperdiçar. E eu não posso me dar a esse luxo.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Friday, May 27, 2005

E-mail resposta

A mocinha vive deixando de lado o mocinho. Ele, jurando amor eterno, sempre volta ao menor aceno. Um dia, depois de meses separados, a mocinha procura o mocinho. Ele não responde. Não atende telefonemas, não retorna os e-mails. Aí ela descobre que ele era o homem de sua vida. Na verdade, aceita. Saber ela já sabia. Roteiro batido?

Um belo dia chega uma mensagem. O mocinho, incomunicável, ainda existe e continua a jurar amor eterno. Ufa, alívio! Com um porém. Encontrou outra garota, que nunca o deixou de lado. Diz que não pode traí-la ou abandoná-la. Mas continua a pensar na mocinha, “a cada vez que respira”, diz a mensagem.

De mãos atadas, ela apela ao roteirista. Não quer esperar décadas até reencontrá-lo e viver feliz para sempre, como terminariam todos os filmes românticos. Ela tem urgência. Ele, medo - ou preguiça de arriscar tudo de novo.

Quem é o vilão da história? A mocinha, que depois de anos indecisa resolve querer o mocinho e fazer desmoronar toda a vida que ele construiu sem ela, ou ele, que mesmo sem ter a intenção de voltar cultiva as esperanças da mocinha com e-mails, raros, mas apaixonados?

A seguir, cenas dos próximos capítulos. Que não prometo atualizar se não me for favorável...



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, May 22, 2005

Um conselho

O romance acabou e meu amigo me escreveu, tristonho. “Diz aí, como se faz para esquecer alguém?” Foi perguntar logo para mim, que tenho esse péssimo defeito: quando me pedem conselho, eu dou.

Quase respondi automaticamente que, em relacionamentos, fim pode ser meio. Tenho uma lista de amigos, parentes e, okay, algumas experiências pessoais para comprovar essa tese.

Ainda cogitei dizer algo como: ah, não se preocupe, querido, logo surgirá outra pessoa. É lícito usar clichês para a nobre finalidade do consolo, não? Não estaria mentindo, estaria?

Um pouco.

Meu amigo é um ótimo partido, disso não duvido, mas quem sou eu para prometer não-solidão. Sugeri a que passasse mais tempo consigo mesmo, desfrutasse da própria companhia (que é boa, muito boa).

Que se mimasse, se esbaldasse de ópera, que ele adora, e chocolate, que todo mundo adora e, dizem, é especialmente gostoso nessas horas. Que não colocasse sua felicidade, assim, nas mãos de quem perdeu, ainda que provisoriamente, ou – pior – de quem ainda pode (ou não) conhecer.

Apaixonar-se por outra pessoa só é a melhor forma de se restaurar um coração partido se a nova razão do seu afeto for, adivinhe, você mesmo. Do contrário, muda-se o seqüestrador e você permanece refém.

Viver junto é gostoso, das melhores coisas da vida, mas viver só não precisa ser um terror. É sério, não precisa.

Muita ópera e chocolate para o meu amigo. Ele é uma graça, não consigo imaginar melhor cônjuge para si mesmo. Ele se merece, no melhor dos sentidos.

Estou orgulhoso do meu conselho, preciso confessar. E, desta vez, eu até gostei do papel (ridículo) de alcoviteiro.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, May 12, 2005

O diário de Drummond

Gente, não tem a menor graça. As pessoas podem estar sorrindo, os lugares serem bonitos, mas ver álbuns de fotos de desconhecidos é muito chato. Aquele monte de gente abraçado que só muda de posição e de ordem não tem apelo quando as caras não são familiares. A empatia depende da proximidade – para o dono, elas são o máximo!

Escrever é mais ou menos como criar retratos de situações. E, dependendo do elenco de assuntos, o álbum de letrinhas pode ser divertido mesmo só para quem escreve – ou para poucos amigos. O difícil é descobrir em que mundo se escondem esses temas capazes de provocar identificação em todos. As tais fotos de exposição, né?

Por mais que olhe a minha volta, revire jornais e converse, quando sento para escrever um texto a tentação é falar sobre o que me aflige. Conflitos meus, que ficariam melhor em um diário, como os da adolescência – meninas ainda escrevem diários?

Acabam sendo textos tão confessionais que às vezes hesito em publicá-los. Pela exposição – sim, é verdadeira a frase dita por alguém de que para escrever é preciso estar disposto a se despir diante do mundo -, mas também pelo temor das palavras fantasmas. Nesses textos pessoais, talvez haja mais frases vagando na minha cabeça enquanto leio do que as realmente escritas na página.

Cada linha digitada arrasta meu envolvimento com o tema, assim como o dono do álbum enxerga as fotos com toques de sua memória. E você, que lê o texto aí do outro lado, sem, como eu, conviver com aquele conflito o dia todo, saberá mesmo do que estou falando?

O consolo, e a inspiração para esse post, veio de uma entrevista de Drummond. “Ao escrever poesia o que procurei fazer foi resolver problemas internos meus, de ascendência, problemas genéticos, problemas de natureza psicológica, de inadaptação ao mundo como ele existia. Foi a minha autoterapia. O resultado é esse.”

Bem, ao menos escrever sobre os próprios conflitos não é uma limitação de blogueira.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, May 10, 2005

O ator

Acabo de assistir a uma entrevista com as Fernandas. Montenegro e Torres, mãe e filha, fantástica e maravilhosa. Eu adoro entrevistas de atores. Eles parecem se divertir tanto... Aí eu fico pensando: puxa, bem que eu podia ser ator.

Lembro-me de responder, ainda muito criança, sobre o que queria ser quando crescer: ator. As pessoas riam, achavam bonitinho. Mas eu queria mesmo. Tia, é sério, eu quero ser ator. Que gracinha, ele quer aparecer na televisão. Vai ser um Tony Ramos, vai?

Eu comecei a disfarçar o meu desejo. Pára com isso, tia. Estava brincando... Acabei perdendo a convicção. A gente acaba virando o que tenta parecer?

Fiz teatro na escola. Passa-tempo, né? É, passa-tempo. O tempo passava mesmo muito mais rápido.

Mas uns professores chatos queriam que eu imitasse macacos e hienas nas aulas de improvisação. Não tem papel de gente? Eu era um ator limitado. Só queria interpretar humanos, o amador.

Aí, cogitei arquitetura e psicologia. Mas esses cursos não havia na federal, não. Meus pais cogitaram direito por mim. É ótimo para prestar concurso, meu filho. O que, é comigo?

Então, eu escolhi jornalismo. Gostava de escrever. E gostava que lessem o que eu escrevia (só depois de muitíssimo bem revisado, claro). Deu nisso. Eu gosto, só que... ah... também há macacos e hienas no jornalismo.

E, de vez em quando, eu entrevisto atores. E, de vez em quando, eu me canso de interpretar sempre o mesmo papel.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, May 03, 2005

Nenhuma mensagem nova

Empilhados no topo da caixa de mensagens, os e-mails novos aparecem com o assunto em negrito. E as listrinhas novas têm fundo branco (as antigas, um azul desbotado). Digo ‘listrinhas’ porque são colunas horizontais estreitas. Brancas quando as respectivas mensagens ainda não foram lidas, destacam-se das demais. Brilham.

Ao me deparar com uma listra assim, sinto um friozinho na barriga. Alguém me escreveu.

Mas, por vezes, as listras são todas azuis. Nada novo no topo. Fico frustrado e o curioso é que geralmente não aguardo nenhuma resposta. Se escrevesse para alguém hoje, por exemplo, diria que esta tudo bem, tudo tranqüilo. A única pendência continua sendo... a vida. E, como não fiz nenhuma proposta, declaração ou convite, nem há grande expectativa sobre o que pode chegar.

Não deveria haver.

É preciso mandar e-mails para recebê-los, eu sei. Envio poucos. Falta tempo, falta o que dizer. Falta saber exatamente que resposta eu quero obter. Hum, é isso: sinto falta das respostas de e-mails que nunca enviei. Digo isso numa perspectiva existencial.


Uma caixa de e-mails sem novidades é sinal de que, por hora, tudo vai continuar como está.

Nem todas as listrinhas brancas trazem boas novas. Nem todas trazem novas, aliás. Mas todas sugerem uma surpresa, uma transformação, uma reviravolta. Ainda que por breves instantes, numa fugidia propaganda enganosa. O momento antes do clique dura menos que um momento...


E daí? Tolice dispensar alentos.

Só que, percebi, tolice maior é contar com eles. As mensagens da expectativa quase sempre vão para pasta das frustrações. Besteira armazená-las. Apagar para sempre? Sim, okay, tenho certeza.

Melhor especular sobre os e-mails que eu mesmo desejo mandar.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)