Matinal
De manhã, falta tempo; à noite, inspiração. Percebi que os temas expiram no correr da tarde. Temas para crônicas. Durante o banho matinal, tantas idéias... No caminho para o trabalho, personagens, sinopses, argumentos.
Um dos dois: devo ser condescendente demais antes do meio-dia ou especialmente amargo depois que o sol se põe. À noite, diante do computador, toda a criação perde importância. Qual era mesmo aquela grande sacada?
Tenho tentado decifrar esse fenômeno. Talvez eu devesse sair de manhã com um bloquinho à mão. Mas vou de ônibus para o trabalho e minha letra já é pouquíssimo legível em terra firme. Uso a memória como bloquinho, o que, tenho percebido, não garante melhor legibilidade.
Bem, eu até me lembro de algumas idéias à noite, só não recordo mais por que eram importantes. Às vezes, persisto e escrevo sobre temas vencidos, passados, estragados. Porque só à noite eu, que vivo de escrever, posso discorrer sobre pautas próprias.
Mas a minha inspiração não tem senso de oportunidade. Não está nem aí para a programação estabelecida. Sabe que eu tenho meus compromissos, mas não quer se comprometer. Vem e vai (de manhã), a despeito de mim.
Eu é que devo me submeter. Acordar mais cedo e me atrasar, o que for necessário. Porque, se a inspiração é uma urgência, adiar é desperdiçar. E eu não posso me dar a esse luxo.
Leandro Quintanilha
(minicertezas@ibest.com.br)
