Roubei meu tempo
Antes da primeira letra, olhei as horas: 21h20. Penso quanto tempo vou demorar para escrever e o que vai me restar antes de dormir. São nesses minutinhos que posso ser eu mesma. Nas outras horas do dia que se arrasta, a sensação é de ter emprestado o corpo para outras tarefas – e ter de acompanhá-lo, por falta de meios de me desprender.
Só que nos últimos meses, da hora em que o despertador toca até quando é tarde demais para começar qualquer projeto – mesmo que seja pensar na vida – um compromisso dá lugar a outro e essa falta de tempo comigo mesma me asfixia.
Já foi diferente em outra época. A rotina era a mesma: consumia todos os minutos do dia para cumprir o programado e ainda me faltava tempo. Certa vez, uma amiga, cansada de conversar enquanto eu lia, escrevia ou fazia outra coisa, disse não entender como era possível. “Eu preciso de um tempo sem fazer nada, comigo mesma, ou então eu piro”, disse, sentada há horas fazendo e desfazendo suas trancinhas.
Agora entendo. Foi uma época em que não havia essa divisão. As tarefas eram intermináveis, mas eu estava comigo o tempo inteiro, resolvendo as ansiedades de sonhos pendentes. Passei a fazer coisas e adiar para a noite os planos. E como o tempo foi ficando cada vez mais curto para eles, estou meio neurótica.
Larguei a academia porque não queria desperdiçar as noites e chegar em casa só para dormir. Me sinto culpada de ficar vendo TV. E prefiro comprar algo a comer em casa. É quase uma paranóia acompanhar os ponteiros do relógio.
Por outro lado, ter tão pouquinho tempo para mim, tem me feito enxergar com o que eu realmente gostaria de gastar a vida.
Ah, a propósito, demorei 1h42 - com alguns minutos roubados por dois telefonemas que valeram muito a pena.
Patrícia Pereira
(minicertezas@ibest.com.br)
