Minicertezas

Friday, April 29, 2005

Roubei meu tempo

Antes da primeira letra, olhei as horas: 21h20. Penso quanto tempo vou demorar para escrever e o que vai me restar antes de dormir. São nesses minutinhos que posso ser eu mesma. Nas outras horas do dia que se arrasta, a sensação é de ter emprestado o corpo para outras tarefas – e ter de acompanhá-lo, por falta de meios de me desprender.

Só que nos últimos meses, da hora em que o despertador toca até quando é tarde demais para começar qualquer projeto – mesmo que seja pensar na vida – um compromisso dá lugar a outro e essa falta de tempo comigo mesma me asfixia.

Já foi diferente em outra época. A rotina era a mesma: consumia todos os minutos do dia para cumprir o programado e ainda me faltava tempo. Certa vez, uma amiga, cansada de conversar enquanto eu lia, escrevia ou fazia outra coisa, disse não entender como era possível. “Eu preciso de um tempo sem fazer nada, comigo mesma, ou então eu piro”, disse, sentada há horas fazendo e desfazendo suas trancinhas.

Agora entendo. Foi uma época em que não havia essa divisão. As tarefas eram intermináveis, mas eu estava comigo o tempo inteiro, resolvendo as ansiedades de sonhos pendentes. Passei a fazer coisas e adiar para a noite os planos. E como o tempo foi ficando cada vez mais curto para eles, estou meio neurótica.

Larguei a academia porque não queria desperdiçar as noites e chegar em casa só para dormir. Me sinto culpada de ficar vendo TV. E prefiro comprar algo a comer em casa. É quase uma paranóia acompanhar os ponteiros do relógio.

Por outro lado, ter tão pouquinho tempo para mim, tem me feito enxergar com o que eu realmente gostaria de gastar a vida.

Ah, a propósito, demorei 1h42 - com alguns minutos roubados por dois telefonemas que valeram muito a pena.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, April 25, 2005

Bonita a sua letra

A personagem da série de tevê respondeu assim ao elogio que o interlocutor fez a seu pezinho, desprevenidamente à mostra: ah, essa coisa velha?! Como se fosse um sapato esfolado – passível de desprezo ­– e, não, uma parte do corpo ­– passível de admiração.

Fico impressionado como algumas pessoas reagem mal a elogios. Outro dia, no trabalho, comentei com uma colega como estava bonito o seu cabelo. Transtornada, ela rebateu com um discurso inflamado sobre fios ensebados e pontas arrebentadas.

Acabei me sentindo culpado por tocar no assunto. E vagamente convencido dos argumentos dela – talvez não estivesse mesmo tão bonita assim.

Essa minha colega acha que elogio é sinal de pena. Fiquei com pena dela ao perceber isso. Depois, fiquei com pena de mim – ela estava desprestigiando meu senso estético!

Tem gente que acha que elogio é a falsidade sendo simpática. Pode ser. Acho mesmo que os elogios são mais eficazes à manipulação que as ofensas; estas geralmente suscitam reação.

Elogios, hum, podem nos tornar reféns. Terrível é o medo de decepcionar quem nos admira. Mortal, o de desapontar quem nos inveja. Que feio.

Uma amiga da minha mãe foi incumbida, certa vez, de escrever um cartão para a chefe em nome de toda a repartição. Todos se surpreenderam com a belíssima caligrafia da colega. Era ela agora, a Cida da letra bonita, quem preencheria os relatórios importantes, quem faria os cartazes.

Mas Cida escrevia garranchos. A letra do cartão fora cuidadosamente dissimulada, desenhada em vez de escrita.

O elogio premiou a fraude, mas puniu a fraudadora. Cida passou semanas desenhando éfes com curvinhas e jotas com rabinhos até a confissão desesperada: minha letra, colegas, é horrorosa.

Eu, em particular, gosto de afagos. Mas decidi acreditar nos elogios da mesma forma como aprendi a receber as críticas – relativamente. Ouço com atenção, considero cada argumento. Mas, se, por fim, ainda houver dúvida, acredito só no que me convém.


Leandro Quintanilha


(minicertezas@blogspot.com)

Monday, April 11, 2005

O meio-termo

A princesa era linda e bondosa. O povo aprovava com entusiasmo o casamento que a família real apenas consentia (sua alteza era princesa por vocação, não por descendência). A festa foi linda, no charmoso ano de 1981, com a presença de 600 mil penetras. Ou melhor, plebeus.

Mas o príncipe não queria aquela princesa. Ela, alteza de uma elegância inata, sem sangue azul, era apenas o meio-termo. O acordo. A conciliação. O príncipe, orelhudo, já havia sido enfeitiçado pela bruxa, de dentes de cavalo. A mulher casara-se com outro – uma nora divorciada a rainha má jamais aceitaria.

Então, o príncipe optou pela princesa-plebéia (plebéia, sim, mas de família rica). Não era uma princesa autêntica como mamãe queria, nem a bruxa comprometida a quem realmente desejava. Era o meio-termo, o acordo, a conciliação. No mais, a opção que o povo aprovava. Ah, a princesa era tão linda.

Foi a decisão sensata. Como o jovem de vocação artística que estuda arquitetura para não se submeter à engenharia. Mas vai aposentar os pincéis do mesmo jeito.

O príncipe foi infeliz; a princesa, também. Ele a traiu, claro, com a bruxa; ela o trocou pelo trabalho assistencial. O príncipe queria salvar seu coração; a princesa, o mundo. Ninguém ficou para salvar o casamento.

O público chorou. Os cônjuges, nem tanto. É que os plebeus (ou melhor, penetras) haviam se afeiçoado àquele folhetim real (e real), a despeito da angústia dos protagonistas. Sem um rumo certo para a sua personagem, a princesa, pobrezinha, morreu.

A vida às vezes parece ficção de má-qualidade: se o roteirista não sabe o que fazer com mocinha, corta logo ela da história.

Ficaram o príncipe e a bruxa, agora desimpedidos. Finalmente livres da princesa bondosa, que só lhes fazia contraste. Os tempos mudaram e a rainha má já não mandava em mais ninguém. O meio-termo foi deposto. A conciliação, desfeita. O acordo, revogado.

O príncipe feio e a bruxa sem charme casaram-se, enfim, 33 anos depois. Os plebeus não ligaram (nem compareceram). E pensar que, tão apaixonados, ficaram separados por mais de três décadas... Apenas um fôlego de coragem, logo ali, no comecinho da história, foi tudo o que faltou.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, April 03, 2005

Querido Admirador Secreto,

Anda sumido, moço. Deixava recadinhos para mim com tanta regularidade, acabei me acostumando com a atenção. Mas você desapareceu. Sem ao menos deixar uma carta de despedida... Anônima, que fosse.

Fico me perguntando se você está bem. Esse lance de identidade secreta atrapalha nossa relação, rapaz. Você some assim, eu fico preocupado. Acaso foi atropelado? Ai, espero que tenha sido apenas uma gripe. Olha, toma um chazinho de gengibre com limão (minha mãe diz que é ótimo).

Será que você volta? Puxa, nem tivemos chance de conversar. Eu queria saber de onde você me conhece. E também... ah... tipo... do que exatamente você gostou em mim. Conta, vai.

É uma curiosidade minha. Mande-me um bilhetinho sem assinatura. Sabe que eu até gosto do seu anonimato? Pois é, eu gosto. No melhor dos sentidos, prazer em não conhecê-lo. Assim a gente não estraga as coisas, né?

Também queria entender por que você sumiu. Fala a verdade ­– o problema é o meu cabelo? O pior é não saber quando me vê. Talvez você tenha encontrado outra pessoa (hipótese que prefiro à do cabelo; arranha menos a auto-estima). Alguém para amar confessamente.

Se for isso, boa sorte, querido. Eu amo alguém, você deve saber, e recomendo.

Vou me lembrar com carinho da nossa história não-acontecida. Os amores perfeitos são como o nosso, imaculado. E isso, nós dois devemos a você, que nunca se apresentou. Mas os amores imperfeitos são melhores, você vai ver. É um desses mistérios da vida.

Só espero que a nova razão do seu afeto esteja à minha altura. Brincadeirinha... Que esteja à sua.

Obrigado por tudo. Beijo e até.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@blogspot.com)

Friday, April 01, 2005

Aquele dia que nunca chega

O título, já vi em algum lugar - agora não lembro. Mas ele nunca foi tão meu. Estamos prestes a nos mudar de apartamento. Um ‘prestes’ que se arrasta e nunca se concretiza. Escolhemos um aqui, outro ali. Nunca chegamos ao perfeito: em um não cabe a máquina de lavar, o outro é longe de tudo, tem o caro demais e o barato demais - que alugaram na nossa frente, claro. E assim, de tentativa em tentativa, adiamos a mudança.

Sei que no fundo, a ansiedade que sinto nem é pelo endereço novo. É mais por uma ‘Patrícia’ nova. Parece que dentro das portinhas do armário (que ainda nem compramos) vai estar guardada aquela vida que eu sonhava para mim quando brincava de boneca – com os devidos acréscimos que vieram com os anos.

A gente inventa que ainda não é o que deseja ser porque está com a roupa errada, ou no trabalho errado, ou na cidade errada, ou até na casa errada. E aí arrasta a ilusão de que um dia, como num passe de mágica, o ‘eu’ certo vai vir com o caminhão de mudança.

Só que esse dia, com tudo certinho como a gente pensou, nunca chega. E adiamos planos, escondemos fraquezas, com a certeza de que os culpados não somos nós, mas as circunstâncias.

Encontrei um jeito de conter a ansiedade. Não me preocupo mais em saber onde vai ser meu novo quarto. Decidi me encontrar neste mesmo e me levar para onde eu for.

Em tempo. O título é de um livro de Luis Fernando Veríssimo, que está bem ali ao lado na minha prateleira, “Aquele estranho dia que nunca chega”. E ainda em tempo. Acabamos de ligar para a imobiliária, parece que o tal dia da mudança chegou. Ao menos dos móveis.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)