Minicertezas

Sunday, March 27, 2005

Funcionário da vida

Eu deixaria as compras do fim de semana para a segunda. As notícias do domingo, para terça. Informação com nostalgia... De madrugada, buscaria a pizza eu mesmo. Ou me contentaria – feliz – com macarrão instantâneo. Enviaria cartas com a antecedência necessária. E esperaria pacientemente pela encomenda que estivesse para chegar.

Acabou o expediente e ainda não passei pelo caixa? Colocaria tudo de volta no lugar e voltaria no dia seguinte, depois das dez. Suportaria a febre alta em silêncio, debaixo dos meus cobertores, sem incomodar ninguém – há emergências mais emergenciais, eu sei.

O expediente de um certo banco agora vai das nove às dezoito, informa o comercial. Os outros vão ter de imitar, funciona assim. Fiquei mais triste pelos bancários que feliz pelos clientes. Continuaria me arranjando das dez às quatro, sem reclamar, eu juro. Eu até ‘juros’, caso necessário, numa boa.

Abriria mão do controle de qualidade, do serviço de atendimento ao cliente, do plantão de dúvidas, da pronta-entrega. Só para que as pessoas trabalhassem menos, não houvesse horas extras nem plantões de domingo. Para que não se perdesse tanta vida ao ganhar a vida.

Pagaria mais pela previdência social. O dobro, o triplo, para me aposentar mais cedo. Eu ganharia menos!

Às vezes, salário é suborno e trabalho, produto de extorsão.

Outro dia, conversando com amigos sobre prêmios lotéricos, dei-me conta sobre minha aspiração de milionário. Viagens? Carros? Imóveis? Não, não, não. Eu compraria o meu tempo. Investiria em fins de semana sem plantão. Aplicaria em sessões vespertinas de cinema às quintas-feiras.

Eu me contrataria para viver. E pagaria muitíssimo bem.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Friday, March 25, 2005

Esse menino...

Ele está com 30 anos e mais comportado, uma pena. Adoro como ele banaliza as convenções. Acabo de assistir a uma entrevista com o André Gonçalves e o apelo é irresistível. Afinal, ele é a única pessoa a quem eu me prenderia com algemas sem me importar com a chave. É que, no fundo, eu queria ter a vida dele.

Tá, tá, tá. Já vou explicar de onde vem toda essa babação pelo menino. Um dia, ainda garoto, ele teve de fazer um teste para entrar no elenco de uma peça (ou de um curso). Pediram aos candidatos que imitassem alguém envergonhado que tivesse feito xixi na calça. Simples de resolver: no palco, ele fez de verdade. Ganhou o papel (ou a vaga, não recordo).

Namorou das mais novinhas às mais velhas. Casou e descasou e casou de novo e deixou no rastro um bando de filhos, um com cada uma delas. Sua frase preferida dita a Marília Gabriela: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. Combina – com a inconstância de seus sentimentos exagerados.

Fui a uma peça em que ele pulava do palco, de uma plataforma de segundo andar, bem em cima da platéia. E saía correndo, se apoiando no encosto das cadeiras até chegar ao fim da última fila. Era só para anunciar o intervalo.

E se o braço de alguém estivesse no encosto? E se o diretor não gostasse do xixi? E se os filhos dessem trabalho e muita despesa? Ele simplesmente faz, com ares de quem nem percebe que está quebrando todas as regras. E nós, sempre tão precavidos, morremos de inveja dessa liberdade.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, March 20, 2005

Nossa casa

Começou quando vimos o tal jogo de sala na loja. Eu vi com o sofá verde; ela, com o azul. Em dias diferentes. A mesa, branquinha, com cadeiras alaranjadas, era a mesma. A sala dos nossos sonhos, confortável e irreverente, no segundo piso da loja.

Pronto, agora só faltava o apartamento.

Não demorou, encontramos um. Encontramos o. Dois quartos, dois banheiros, localização estratégica e uma vista linda.


Não era perfeito, não: por fora, o prédio estava bem desgastado e eu definitivamente não gostei dos elevadores. Nossa primeira providência seria trocar a plaquinha da porta – o número 114, tão simpático, poderia ser mais fotogênico.

O corretor era meio ríspido: fiador de São Paulo. No máximo, da Grande São Paulo. Não pode ser do Rio? E de Campinas, logo ali? No máximo, da Grande São Paulo.

Mas a gente não precisaria morar com ele, né?

Era o nosso apê: o lar dos melhores amigos, enfim. O cenário para nossa sala verde-ou-azul com alaranjado. Para as nossas sessões de jogos, vídeo, conversa fiada.


Fachada nem é tão importante... E, qualquer hora, tenho certeza, trocariam os tapetes dos elevadores. Eu poderia ser síndico!

Aquela luminosidade. O computador ficaria perto da janela, combinamos assim. Quando faltasse inspiração, poderíamos mirar a cidade, à caça de um tema para a crônica, à caça de um tema para a vida.

No mais, a máquina de lavar caberia direitinho na área de serviço.

O nosso apartamento, a nossa casa. Com uma nova plaquinha na porta e muitos convidados para jantar. O banheiro azul, a gente decoraria de branco. O cinza, ah, este com acessórios bem coloridinhos. Minha mãe, que viria nos ver em maio, ia adorar.

Fomos ao encontro do corretor mal-humorado. Arranjamos o fiador, moço! E tínhamos arranjado todos os móveis, todos os quadros, todas as visitas, todos os hóspedes, todos os jantares, todas as madrugadas de insônia feliz.

Desculpe, mas já há alguém com toda a papelada. Às nove da manhã de uma quarta-feira, fomos despejados, sem aviso prévio, do lar que sempre foi nosso e onde nós nunca moraremos.

Não faz mal, não. A gente decora nosso sonho outra vez.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Friday, March 11, 2005

Traída pelos olhos

Alguém neste mundo não conhece a Sharon Stone? Pois é, eu. Acho que tenho uma falha genética, não consigo memorizar fisionomias. Vejo filmes com um mesmo ator e muitas vezes só descubro isso quando sobem os créditos – ou quando um amigo comenta que a atriz tal, daquele filme da semana passada, estava irreconhecível (o que me consola...).

Já fui motivo de várias crises de riso. Uma delas foi quando perguntei quem era a Cher. Criei várias estratégias e consigo fugir dessas perguntas embaraçosas para não parecer tão ridícula. Mas, de um tempo para cá, resolvi assumir minha deficiência.


O problema é que as enrascadas em que me meto por essa falta de memória visual não são apenas discussões sobre filmes. Lembro de uma vez em que trabalhava no jornal de minha cidade (Volta Redonda) e precisei cobrir um evento sobre o dia da imprensa. Teria de entrevistar todos os "famosos" da região que estivessem por lá.


Entrei em pânico. Se a Luana Piovani (já aconteceu!) pode passar ao meu lado e nem ser notada, os "conhecidos" da região só seriam abordados se levassem plaquinhas com identificação. E eis que avisto uma suspeita – prefeita de Barra Mansa (cidade vizinha?). O jeito foi me fazer de boba e consultar uma pessoa mais normal: "ué, vim lá do outro lado, parece que vi a Inês Pandeló por aqui, não era ela?". "Ah, sim, ela está logo ali", ufa, consegui a informação. Muitos outros devem ter escapado.


Mais. Não guardo o rosto dos pretês de minhas amigas e nunca sei quando eles passam. Descubro, atrasada, pelas bochechas ruborizadas. E, pasmem, não me lembro do rosto dos meus! Já me vi chocada tentando entender por que eu quis encontrar de novo certos garotos.

Foi só uma confissão. Se alguém se identificar, ou conhecer outra pessoa assim, por favor, me avisem. Eu nunca encontrei ninguém.

Patrícia Pereira


(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, March 07, 2005

Inveja dos bebês

É preciso ter força de vontade, mas é dificílimo resistir à força da vontade.

Tenho tentado reduzir o tempo que passo na Internet, tomar menos sorvete, exercitar-me todos os dias, escrever com mais regularidade... Poucas vezes as coisas que quero fazer são as mesmas que acho importante fazer. E, às vezes, acho importante fazer simplesmente o que quero.

Mas queria querer outras coisas.

Tenho inveja dos bebês. Que vivem para comer, dormir e serem ninados. Vivem em função do prazer, do estímulo dos sentidos, da satisfação de necessidades primárias. E o melhor: sem culpa.

Eu, não: fico me martirizando. Porque deveria fazer mais palavras-cruzadas para estimular a memória. Mas prefiro dormir meia hora a mais. Porque só deveria colocar o amaciante no segundo enxágüe. Mas escolho assistir aos Simpsons.

Id e superego: queiram, por gentileza, entrar em acordo.

Li em algum lugar que esta é uma geração hedonista. Não sei, não. Prazer com culpa, conta? Culpa devia ser atenuante. Ou agravante, nem sei. Culpa é a consciência propositalmente tardia do erro. A culpada é a culpa.

A crônica ainda está curta, mas eu quero terminá-la agora. Bateu uma preguiça... Não posso: tenho de desenvolver a idéia. Onde já se viu? Parágrafos de uma linha?

Problema nenhum, oras.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)