Funcionário da vida
Eu deixaria as compras do fim de semana para a segunda. As notícias do domingo, para terça. Informação com nostalgia... De madrugada, buscaria a pizza eu mesmo. Ou me contentaria – feliz – com macarrão instantâneo. Enviaria cartas com a antecedência necessária. E esperaria pacientemente pela encomenda que estivesse para chegar.
Acabou o expediente e ainda não passei pelo caixa? Colocaria tudo de volta no lugar e voltaria no dia seguinte, depois das dez. Suportaria a febre alta em silêncio, debaixo dos meus cobertores, sem incomodar ninguém – há emergências mais emergenciais, eu sei.
O expediente de um certo banco agora vai das nove às dezoito, informa o comercial. Os outros vão ter de imitar, funciona assim. Fiquei mais triste pelos bancários que feliz pelos clientes. Continuaria me arranjando das dez às quatro, sem reclamar, eu juro. Eu até ‘juros’, caso necessário, numa boa.
Abriria mão do controle de qualidade, do serviço de atendimento ao cliente, do plantão de dúvidas, da pronta-entrega. Só para que as pessoas trabalhassem menos, não houvesse horas extras nem plantões de domingo. Para que não se perdesse tanta vida ao ganhar a vida.
Pagaria mais pela previdência social. O dobro, o triplo, para me aposentar mais cedo. Eu ganharia menos!
Às vezes, salário é suborno e trabalho, produto de extorsão.
Outro dia, conversando com amigos sobre prêmios lotéricos, dei-me conta sobre minha aspiração de milionário. Viagens? Carros? Imóveis? Não, não, não. Eu compraria o meu tempo. Investiria em fins de semana sem plantão. Aplicaria em sessões vespertinas de cinema às quintas-feiras.
Eu me contrataria para viver. E pagaria muitíssimo bem.
Leandro Quintanilha
(minicertezas@ibest.com.br)
