Minicertezas

Sunday, February 27, 2005

Não quero dormir, não quero acordar

Li em algum lugar que pode ser hipoglicemia. O fato de eu acordar meio triste todas as manhãs. Ou quase todas. A pessoa fica sem se alimentar por horas (as horas de sono) e acorda melancólica. Normal, dizem os médicos. Se chupasse uma balinha no meio da noite, talvez salvasse meu humor matinal. Mas ficaria, provavelmente, cheio de cáries.

Tenho acordado meio deprê ultimamente. E sem nenhuma razão aparente. Então, culpo a falta de açúcar. No decorrer do dia, fico melhor, volto a ser eu mesmo. Ao cair da noite, que surpresa, viro um otimista cafona. Isto é, uma hipérbole de mim mesmo. Será porque abuso nos doces? (Tenho mania de repetir a sobremesa. E, na seqüência, repetir a repetição.)

Por isso, gosto de dormir tarde. À noite, eu sou feliz.

Queria que fosse ao contrário. Acordasse cheio de entusiasmo, com energia para cantar no chuveiro, ir à academia, sorrir para as pessoas, trabalhar, viver. E fosse murchando no decorrer do dia. Ficaria introspectivo à tarde. À noite, finalmente, eu me recolheria, para adormecer com a minha dor.

Um personagem de um filme disse que se tem de acordar todos os dias como se fosse de propósito. Ah, queria eu acordar com essa convicção... Mas aprendi a ficar enrolando na cama depois que o despertador toca. Para tomar coragem. Vinte e cinco minutos depois, levanto-me ainda covarde, só pela urgência do atraso.

Nesta noite, vou programar o despertador para tocar às quatro da manhã e comer um docinho.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, February 24, 2005

Reencontro

Há seis anos, mudei meus caminhos e nunca mais estive com ele. Foi um fim repentino quando toda a vida que eu queria era aquela. A nova rotina impôs o desencontro. Enfim, aceitei. E fiquei de longe a me lembrar daquele caso. No fundo, eu sabia que teria volta.

Na semana passada surgiu a possibilidade do reencontro. Fiquei apreensiva (para não dizer apavorada). Deixei os meses se arrastarem e adiei tanto... Será que devo agora? A tormenta durou dias. Tive medo de já ser diferente, de não reconhecer tudo o que vivi. Não queria macular uma época de sonho.

Na verdade, a dúvida era se teria disposição para construir de novo aquela história. Estava certa de que bastariam dois segundo, bem de perto, para ser novamente fisgada. E não sabia se estava preparada para o caos que se torna minha vida – ele distorce minhas certezas e faz meus olhos ver outro mundo.

Mas quando o deixei para trás, também sabia que não estava preparada para seguir sem ele. A sensação foi de ir murchando aos poucos, ir sentindo a vida perder o encanto até entrar na rotina chata de quase todo mundo deste mundo. Sempre quis tudo de volta.

Um impulso me levou a marcar a data. Ficaria de novo cara-a-cara.

No sábado de manhã lá estava eu. Subi no palco com o pé direito. E não sei se posso mais ficar longe da coxia.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, February 21, 2005

Armadura de papel

Acabo de sair de uma gripe. Dessas que parecem doença terminal. E, ontem, meu namorado, que pegou a tal gripe, pobrezinho, fez um comentário que não consigo esquecer. Incomodado com uma febre que simplesmente não passava, disse que se sentia preso no próprio corpo. “Deve ser assim que os velhinhos se sentem, né?”

É, deve ser assim.

No fim de semana, uma amiga me mostrou um trecho de uma matéria de jornal sobre eutanásia. Não estou pretendendo insinuar que gripe seja uma situação de passível de eutanásia, embora exageros do tipo sejam bem coisa minha. Já me explico.

É que a reportagem narrava o caso de um homem acamado, prestes a perder a capacidade de comunicação, que se despedia da mulher com um bilhete: “Eu te amo. Não sabe como é triste perceber você tão perto e eu, já tão distante.”

Fiquei pensando nisso, na fragilidade do corpo, a despeito do quão forte seja a essência. Teria razão Adélia Prado? Sem o corpo a alma não goza?

A experiência neste mundo indica que sim. Que uma personalidade precisa invariavelmente de um corpo – jovem, de preferência – para se expressar. Para existir. Ah, que inveja dos religiosos e sua certeza de eternidade... Sua certeza de que o corpo é um meio passageiro, sim, mas substituível. Ou descartável, no tempo certo.

Meu chefe encomendou uma matéria sobre o projeto da roupa robótica, uma espécie de armadura eletrônica para paraplégicos, tetraplégicos e amputados. Funciona por meio de microeletrodos implantados no cérebro. Os membros artificiais responderiam a comandos da mente, tal como os naturais. E, segundo um dos médicos com quem conversei, no futuro o corpo robótico poderá reproduzir até sensações táteis.

Mas a fantasia do Robocop não aquieta minhas angústias, ainda que proporcione até o calor de um abraço. Fico apreensivo só de pensar nos microeletrodos. Abstenho-me do metal.

Ainda que lembre, a cada gripe, que o corpo que me conduz pode, numa hora dessas, me prender, me perder, me inviabilizar. Como aconteceu com aquele homem da matéria de jornal.

Eu me pergunto para onde é que se vai, assim sem sair do lugar, quando já se está "tão distante".

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, February 13, 2005

Dá tempo

Hoje, durante o passeio no parque, conversamos sobre o que ainda gostaríamos de aprender. E eu usei mesmo esse ‘ainda’, como se, aos 25, me restasse pouco tempo. Não resta. Ao menos a princípio, e por princípio meu, não resta pouco.

Detesto quando alguém diz que, para fazer carreira no balé, se tem de começar quando você ainda nem sabe escrever ‘balé’. Quer se um grande pianista? Amiguinho, se tem mais de 12, olha, não vai dar, não.

Okay, nunca aspirei ser bailarino nem tocar piano, mas gostaria de ter essas possibilidades à mão. Eu sempre soube: nunca se sabe, né?

Quero aprender a cozinhar, tirar fotos, falar espanhol, andar de patins, cantar & dançar, tocar violão, contar histórias (e, desta meus amigos vão gostar, ouvi-las com mais atenção), falar devagar, falar na hora certa, desenhar, pintar e, não menos importante, mexer a orelha.

Devo ter esquecido alguma coisa... Outras eu ainda vou descobrir.

Acho que se precisa de tempo para se aprender a identificar o que, de fato, se quer aprender. Aos 10, eu queria ser engenheiro. Que bom que não me deram ouvidos... E sorte minha não ter mencionado a ginástica olímpica.

Penso que a aspirante à bailarina de 5 anos e eu daqui a pouco, aos 47, começaríamos a primeira aula na mesma situação, sem saber dançar. Tá, preciso admitir, há a tal questão da flexibilidade no balé. Mas não digam que não posso ­– a maior inflexibilidade é esta.

Ah, lembrei o que esqueci: quero aprender a nascer de novo. Para todas as vezes que me disserem que é tarde demais.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

Wednesday, February 09, 2005

Desamor

Quando pequena, com cinco ou seis anos, tinha uma cabaninha, daquelas de pano e madeira. Quase que só eu cabia lá dentro. Eu e meus bonecos de argila, moldados na sala da escola. Passava horas ali, organizando o povoado que só crescia. Apeguei-me a eles. Não queria que tivesse fim, era insuportável pensar que um dia pudesse acabar aquela rotina de viver na cabana com meus novos companheiros de cara marrom e roupas coloridas. Sofria com a idéia de que ficariam duros, quebrariam ou seriam jogados fora na próxima faxina.

Assim como veio, um dia foi embora esse desejo desesperado de nunca ficar sem. E, acho que antes de serem destruídos, eu já nem me importava mais com eles. Não me lembro bem o que veio antes, o fim dos bonecos ou o fim do apego.

Os anos passaram e ganhei bonecos do meu tamanho, roupas nem sempre tão coloridas e rostos com os mais diversos tons. As cabanas também já não eram de madeira, cada um deles tinha a sua – alguns até moraram comigo. Fui encontrando pessoas na vida, mas nenhuma me despertou o encanto dos bonecos de argila.

Outro dia encontrei uma criaturinha como aquelas. Voltou tudo. O apego, o medo de perder, a vontade descontrolada de só ficar ali, com ele por perto. Tive a certeza de que nunca passaria. Passou, assim como veio: sem explicação ou data certa. E foi bom.

Consegui sair da cabaninha de novo e descobri que os bonecos de argila existem sim, mas eles vão e vem e somem e voltam mais uma vez, de diferentes formas, com diferentes rostos.

Sempre quis escrever sobre o amor. Nunca passou de duas linhas. É tão difícil. Escrevo sobre o desamor – e deixo o amor em sua sombra.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Wednesday, February 02, 2005

Pequenos rituais

Dois de fevereiro é dia de... comer lentilha. Tá, também é dia de Iemanjá. Passei minha folga cozinhando os tais grãozinhos achatados só para sentir o gosto de um hábito que arrasto da infância. A simpatia é para juntar dinheiro o ano todo. Segundo minha mãe, “não falha”.

Quando pequena, nem gostava muito. Comia só uma colher, meio empurrada. Depois, passei a adorar. Esperava com ansiedade o ano inteiro. Até hoje não sei por que minha mãe só fazia lentilha na data da simpatia. E ficava aquele gostinho, de comida com dia certo – como rabanada no Natal e ovos de chocolate na Páscoa.

Já não me recordo quem ensinou a ela (ou a meu pai) – a sensação é de que o mundo já era assim quando nasci. Um tacho enorme de lentilha na cozinha e um ritual que a cada ano agrega mais adeptos. Uma panela vai para aquela vizinha de frente que sempre pede, a outra para a professora que também gosta, uma vasilha para minha avó – e lá todos os tios comem -, tem a amiga que, sem falhar, vem de Mendes só para provar um pouquinho, e assim vai.

Já peguei minha mãe ao telefone: “meu filho, vai dar meia-noite, você não vem para casa? Oh, ainda não comeu lentilha”. E ele veio, a tempo. Ontem meu pai me ligou, era só para lembrar que eu precisava comer lentilha hoje. Como se eu pudesse esquecer a data que tanto esperava na infância.

Se acredito na simpatia? Não sei, talvez não. Mas adoro esses pequenos rituais que nos fazem estar mais próximos, mesmo aqui, a tantos quilômetros de casa.

Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)