Minicertezas

Sunday, January 30, 2005

Obrigado, garoto

Eu malho às segundas, quartas e sextas. Quando posso (ou consigo), às terças também. Portanto, em três ou quatro dias da semana, encontro-me com uma das pessoas mais gentis e simpáticas que já conheci – o recepcionista da academia.

É um garoto. Ou talvez seja como eu, um adulto com cara de garoto. Puberdade inacabada... Pois é, o tal garoto (acabo de me dar conta de que não sei o nome dele!) parece ter uns 14 anos. Mas talvez tenha 25, nunca se sabe.

A gente se vê rapidamente, enquanto passo pela catraca. Eu digo bom dia e ele, bom dia pra você também. Eu invariavelmente me atrapalho ao tirar o cartão magnético do plástico, que gruda, gruda mesmo. Ele ri de mim.

Aí, o ritual varia. Ele se oferece para ajudar, eu aceito, e fico a observar sua especial habilidade para tirar cartões magnéticos de envelopes plásticos que grudam. Ou ele oferece ajuda, eu digo algo como pode deixar comigo, e ele fica a observar a minha total falta de habilidade para desgrudar o cartão do plástico.

E ri de mim.

Na verdade, o garoto sorri para mim. Meu comportamento seria, sim, passível de riso. De fato, não sei me comportar em academias (alguém sabe?). Perco a dignidade. Mas ele não me deprecia, não. Contempla, aceita. Parece até que se comove com a minha falta de jeito. Sorri.

E, se vez ou outra nos cruzamos pela academia, ele sorri novamente. Na hora, eu sempre me pergunto se fiz alguma coisa errada, se a touca de natação está ao contrário ou se vesti as luvas da musculação do avesso. Mas ele não ri, sorri, eu esqueço.

Aos 14 anos, eu maldizia as espinhas. Se já trabalhasse, especialmente atrás de um balcão, maldiria o mundo. Mas meu conhecido da academia, não. Ele sorri.


Li não sei onde que simpatia persuade sem eloqüência. Assim, sorrindo, ele me convence, sem esforço, de que está tudo bem.

Outro dia, na saída, o garoto estava com os cotovelos apoiados no balcão, massageando o centro da testa com as pontas dos dedos. Quando me viu, adivinhe, sorriu. E disse: dor de cabeça, sabe como é. Ah, eu sei. Melhoras! Ele sorriu.

Fui embora também sorrindo. Inspirado. E torcendo para que a dor do meu amiguinho passasse logo.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, January 27, 2005

Nunca e sempre

A maldita perguntinha das entrevistas de RH, quase todo mundo já ouviu: qual é seu pior defeito? Alguém sabe responder? O meu muda, sempre, sempre. Não a resposta dada, mas a crença íntima naquele que acredito ser o mais grave. Muda tanto que descobriram por mim o de verdade: a inconstância.

Mulher volúvel. Podem me chamar assim. Mas, ao contrário do que a expressão sugere, essa inconstância tem mais a ver com apego do que com desapego. Incoerente? Então vamos lá...

Para entender esse troca-troca de certezas absolutas que não resistem ao passar dos dias – ou das horas – é preciso saber que por trás da mudança tem sempre uma aflição inconsciente: o medo de que a vida termine e eu ainda esteja viva.

Fazer uma opção que dure para sempre – uma profissão, um namorado, uma cidade para morar e tudo o mais que limite em vez de agregar – é esgotar uma possibilidade de vida. É como um formulário que se recebe em branco e, a cada quadradinho preenchido, vão se esgotando os itens a escolher, até que termina (acho que por isso escrevo a lápis e vou apagando).

O desapego de jogar tudo para o alto e mudar de rumo esconde a necessidade de não abrir mão de nada. Uma professora dizia que é preciso fazer uma escolha entre 100 e viver com a nostalgia das outras 99. Tem gente que nem percebe. Eu fico atormentada com esses 99 fantasminhas – quero todos comigo. Nunca, e sempre.

Patrícia Pereira

(
minicertezas@ibest.com.br)

Monday, January 24, 2005

Invejo o mordomo

Queria ser daqueles que falam pouco, mas falam bem. Falam na hora certa, o necessário. Acho que quem fala bem necessariamente fala pouco, pois não dá oportunidades às palavras para que, traiçoeiras, o comprometam. E não se surpreende falando mal de si pelas entrelinhas, ao falar mal dos outros.

Eu queria ser assim, discreto e oportuno, divertido e irreverente. Mas não, não sou. E nem falo muito. Apenas falo nos momentos inapropriados. Coisas também, por vezes, inapropriadas. Às vezes, falo coisas certas do jeito errado. Ou coisas erradas de um jeito ainda pior.

Queria ser como aqueles mordomos de filme de suspense. Reservados, mas que roubam a cena com uma única frase. Uma oração simples, com sujeito e predicado, perspicácia e provocação.

Tinha uma amiga que falava demais. Era inteligente e engraçada - mas só no começo do monólogo. Ela até deixava o interlocutor falar, talvez para seguir um protocolo.

Enquanto conversávamos, percebia seus olhos inquietos, o pensamento ocupado das falas posteriores (as dela), a alma ansiosa pela próxima vez, de falar. O que eu dizia era ouvido, sim, mas rapidamente processado e transformado num comentário, num contra-argumento ou num gancho para um assunto correlato.

Cá estou falando mal de mim, ao falar mal dela, pobrezinha. É que estou me estendendo e, com isso, aumentando a probabilidade de falar bobagens. Acontece sempre comigo.

Acontece também de não ter o que dizer no momento propício. E saber exatamente o que dizer instantes depois que o momento propício tiver passado. (Hum, estes teriam sido meus melhores discursos.)

Queria ter a discrição e o senso de oportunidade de um bom mordomo. Mas insisto em falar na hora errada, a coisa errada, da forma errada. Por vezes, falo por escrito, que é falar documentadamente. E me exponho, me gasto, me entrego ao ridículo, tudo registrado.

Falo e escrevo a despeito do bom senso. Digo e publico conteúdos que eu mesmo considero insatisfatórios (como esta crônica, pelo visto). Eu me expresso não por achar que o faça bem e, nem sempre, por ter o que dizer.

Mas porque quero, preciso ou não resisto.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, January 20, 2005

Raia livre

Foi entre uma braçada e outra, na raia livre da piscina da academia, que me dei conta. Entre uma braçada e outra - torta, muito rápida e sem a menor técnica – de um garoto que dividia comigo o espaço. Percebi que nunca me sinto preparada.

Ele seguia nadando, como se a raia livre – separada para quem já sabe seguir sozinho e pode dispensar o professor – estivesse ali só para ele. Eu, acho que até com um pouco mais de prática, quase pedia licença por ocupar um espaço indevido. Quando me matriculei na academia, adaptei todos os meus horários para nadar sob o olhar de um instrutor. Precisava de orientação ou faria tudo errado. Um desastre.

Depois descobri, ninguém nada bem naquela raia. As pessoas se declaram prontas e abandonam as aulas. E abandonam os cursos de inglês por já saberem se comunicar, sem nunca estarem certas de que aprenderam a última palavra. Consertam rádios sem entenderem bem o mecanismo. Cantam sem dominarem todos os timbres da voz.

Sou mesmo uma bobinha. Espero aprender para depois fazer. E o dia da formatura nunca chega. E, em todas as áreas, fica sempre essa sensação de ser uma eterna aluna.

Acho que descobri um segredo que escondem das crianças. O mundo é mesmo uma farsa. Ninguém está preparado para nada. As pessoas costumam ter uma vaga idéia e, como já são grandinhas, os outros aceitam.

A namorada de meu primo, mais nova do que eu, está grávida. Há tempos espero a sensação de que brincaria de boneca passar para ter os meus. Começo a achar que logo logo vou voltar a comprar roupinhas para a barbie. Já passo horas na raia livre...


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, January 17, 2005

Promessas

Rótulos de xampu mentem. Prometem que vão deixar os cabelos 80% mais lisos e não cumprem. Eu tenho cabelos ondulados, com uma mecha mais crespa do lado direito. Essa assimetria me irrita. Queria que todo o cabelo fosse como a mecha ou a mecha como todo o cabelo. Um xampu me prometeu isso.

E não cumpriu.

Fiz tudo como mandava o modo de usar. Lavei, massageando suavemente os fios, da raiz até as pontas. Deixei o xampu ‘agir’ por alguns minutos (ah, uns dois; se dissesse exatamente quantos, teria obedecido sem pestanejar – faltou precisão). Em seguida, enxagüei, tirando todo o produto. E, claro, ‘para melhores resultados’, repeti a operação.

Melhores resultados? Quando o cabelo secou, a maioria ondulada continuava ondulada e a mexa crespa permanecia intacta, à direita. Por pouco, não liguei para o 0800 do fabricante: escute aqui, mocinha, meu cabelo não alisou!

Sem coragem de recorrer às autoridades, procurei um amigo. Desabafei. Propagandas de xampu são mais enganosas que o horário eleitoral. E ele me disse que as pessoas são enganadas porque querem acreditar. Em xampus e políticos, pensei.

E em deus, nos livros de auto-ajuda, no horóscopo... Porque é reconfortante imaginar que há solução 80% acessível: basta massagear suavemente, enxaguar bem e repetir a operação. Desejos, quaisquer que sejam, ficam, de tempos em tempos, verossímeis para quem deseja.

Mas rótulos de xampu mentem, para desmentir nossas ilusões. Tudo bem, não caio mais nessa. Tenho percebido que, às vezes, fico mais esperto quando me deixo enganar.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, January 10, 2005

Queda livre

Cair na real é dar-se conta da realidade, aperceber-se do mundo, encarar os fatos. Descobrir que ‘não é bem assim', a vida é dura. Cair na real é perder o otimismo, ficar realista; deixar de ser meio artista, ficar meio sério.

Adultos são crianças que caíram na real. Astrônomos, astronautas que também caíram. Arquitetos, pintores que caíram. Jornalistas, escritores que caíram e juram que não. Na real.

Okay, nem todos – há quem acredite que seja isso mesmo; ou que só esteja ganhando tempo; ou tenha caído, sim, mas que se levantará. Há também, claro, quem já nasceu caído, vai morrer assim e... tudo bem.

Entre aspas: é preciso cair na real para sobreviver. Sobreviver, talvez tenham razão. A razão que caiu na real, caiu em si, e não gostou.

Ao contrário, proclame-se, há de se cair na fantasia. E é tão fácil... Basta um pôr-do-sol na praia. Um filme bom, uma peça ousada, uma noite de amor (ou de saudade). E vê-se logo que não é bem assim mesmo – dá-se conta da irrealidade, percebe-se outro mundo, encaram-se os sonhos.

É quando aquela a vozinha misteriosa, sua velha conhecida, sussurra ao pé do ouvido a novidade-já-sabida, que você quer e não quer ouvir: a vida pode ser bem melhor.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, January 06, 2005

Quero um apagão por dia

Outro dia teve apagão no Rio. Não estava lá, fiquei sabendo pelo noticiário. Apareceu gente chiando por todo lado. Quarenta minutos sem luz e até reunião com ministro foi marcada. A melhor opinião que ouvi sobre o blecaute foi a de minha tia: “Ah, que é que tem? Esse pessoal faz barulho por nada.”

Na infância, ela achava uma delícia quando a energia acabava. A mãe logo corria e enchia a casa de vela. E toda vez que dava uma chuvinha mais forte, os filhos torciam para a luz ir embora. Não dava outra.

A gente foi aprendendo a ficar chato. Costuramos tão bem nossa rotina, um amarra o outro de tal forma em horários e compromissos, que perdemos as brechas para nos divertir com os pequenos imprevistos do dia-a-dia.

Que delícia seria sair mais cedo do trabalho ou faltar a academia ou perder um capítulo da novela e ficar em casa conversando na penumbra ou mesmo andar pelos trilhos do metrô com uma lanterna. Seria, mas não dá tempo. Quando acontece, tudo o que se pensa é em resolver rápido o desvio do programado e retomar a agenda.

Sempre tive uma quedinha por esses pequenos “apagões” que ocorrem na vida. Gostava de engarrafamento nas viagens, desses que param tudo - só para descer do carro e conversar com meus primos que vinham mais atrás na estrada. Lembro de uma vez que fui à praia, em Cabo Frio, e faltou água. Tivemos de ir tomar banho - pais, tios, primos, amigos, todos juntos - em um galpão, com banheiro coletivo, uma festa! Fora as bombas colocadas no banheiro do colégio que nos deixavam sem aula por horas. Era o paraíso.

Preciso de um pouquinho desse caos. No piloto-automático do dia-a-dia, perco a noção de que escolho meus caminhos. Sinto o tempo se esvair, a morte se aproximar sem experimentar direito o que é a vida.

Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, January 02, 2005

Atos Falhos

Estou lendo ‘Como Ser Legal’, de Nick Hornby. Sempre achei esse título o máximo, mas, quando só conhecia o livro na prateleira, achava que discorria sobre como ser descolado. Estiloso, irreverente, pop. Mas, na obra, a acepção de ‘legal’ é outra. Bem outra. Qual? Deixe-me explicar: podia se chamar ‘Como Ser Generoso’, ‘Como Ser do Bem’, algo assim.

Se eu fosse psicólogo... se eu fosse meu terapeuta... ou melhor, se eu fizesse análise, não fosse eu e fosse meu terapeuta, poderia supor que estou mais preocupado em ser descolado que bom. Por ter pensado naquilo antes.

Talvez, isso seja psicologismo barato e, se fosse psicólogo de verdade (e, não sendo eu, tratasse a mim mesmo), não me atiraria logo de cara nessa conclusão.

Mas não estudei psicologia; sou mesmo precipitado; concluí isso.

Outro dia, ouvi alguém dizer que, vez ou outra, acordava determinada a ser uma pessoa irrepreensivelmente legal. Naquela acepção mais nobre. Ela levantava da cama decidida a passar o dia inteiro sendo gentil, abnegada, solícita e atenciosa.

Nem sempre conseguia. Mas tentava.

Eu já acordei determinado a cortar o cabelo, retomar os exercícios, ler 60 páginas de um livro. Já levantei da cama disposto a comprar roupas novas, aprender mais sobre história da arte, experimentar um prato novo. A ouvir Beatles, estudar francês, desvendar o meticuloso cálculo do tempo das piadas.

Dificilmente conseguia. Mas tentava.

O fato é que sempre quis ser legal nos dois sentidos, argumentaria eu ao analista imediato. Porque o mais legal é ser legal e legal. Mas percebo que, em detrimento de salvar o mundo, tenho me ocupado com muito mais afinco (e não necessariamente com mais sucesso) em tornar mais interessante o meu mundinho.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)