Obrigado, garoto
Eu malho às segundas, quartas e sextas. Quando posso (ou consigo), às terças também. Portanto, em três ou quatro dias da semana, encontro-me com uma das pessoas mais gentis e simpáticas que já conheci – o recepcionista da academia.
É um garoto. Ou talvez seja como eu, um adulto com cara de garoto. Puberdade inacabada... Pois é, o tal garoto (acabo de me dar conta de que não sei o nome dele!) parece ter uns 14 anos. Mas talvez tenha 25, nunca se sabe.
A gente se vê rapidamente, enquanto passo pela catraca. Eu digo bom dia e ele, bom dia pra você também. Eu invariavelmente me atrapalho ao tirar o cartão magnético do plástico, que gruda, gruda mesmo. Ele ri de mim.
Aí, o ritual varia. Ele se oferece para ajudar, eu aceito, e fico a observar sua especial habilidade para tirar cartões magnéticos de envelopes plásticos que grudam. Ou ele oferece ajuda, eu digo algo como pode deixar comigo, e ele fica a observar a minha total falta de habilidade para desgrudar o cartão do plástico.
E ri de mim.
Na verdade, o garoto sorri para mim. Meu comportamento seria, sim, passível de riso. De fato, não sei me comportar em academias (alguém sabe?). Perco a dignidade. Mas ele não me deprecia, não. Contempla, aceita. Parece até que se comove com a minha falta de jeito. Sorri.
E, se vez ou outra nos cruzamos pela academia, ele sorri novamente. Na hora, eu sempre me pergunto se fiz alguma coisa errada, se a touca de natação está ao contrário ou se vesti as luvas da musculação do avesso. Mas ele não ri, sorri, eu esqueço.
Aos 14 anos, eu maldizia as espinhas. Se já trabalhasse, especialmente atrás de um balcão, maldiria o mundo. Mas meu conhecido da academia, não. Ele sorri.
Li não sei onde que simpatia persuade sem eloqüência. Assim, sorrindo, ele me convence, sem esforço, de que está tudo bem.
Outro dia, na saída, o garoto estava com os cotovelos apoiados no balcão, massageando o centro da testa com as pontas dos dedos. Quando me viu, adivinhe, sorriu. E disse: dor de cabeça, sabe como é. Ah, eu sei. Melhoras! Ele sorriu.
Fui embora também sorrindo. Inspirado. E torcendo para que a dor do meu amiguinho passasse logo.
Leandro Quintanilha
(minicertezas@ibest.com.br)
