De repente, estava vivo. Não conseguia se lembrar ao certo como aquilo tudo começou. Da primeira memória, não se recordava. Quer dizer, recordava, claro, porque era 'lembrança'. Mas não sabia dizer qual das lembranças mais longínquas era, de fato, a mais antiga. A primeira.
E, não sabendo como tudo começara, tinha a sensação de que sempre existira. Uma espécie de ilusão de ótica existencial.
De repente, estava vivo e nem se dava conta disso. Aos poucos (isto é, numa forma mais lenta de repentinidade), foi se conscientizando de que... era. Existia. Até então, achava normal existir. Muita gente existia. Existia gente demais até.
Só que, às vezes – e, às vezes, muitas vezes – existir não era muito legal, não. Havia momentos em que existir enchia o saco. E, quando existir ficava quase insuportável, ele começava a se perguntar por que, raios, existia. Justo ele!
Deram umas explicações meio esquisitas. Disseram que deus, um ser superior, onisciente, onipresente, onitudo, foi quem inventou a humanidade. E o resto das coisas vivas e inanimadas também. Esse deus, o inventor, era bom e magnânimo.
Só não explicaram por que um ser assim tão poderoso, tão criativo e tão legal poderia ver tudo, estar em todos os lugares e não fazer nada para que a existência ficasse um pouquinho mais, digamos, divertida.
Um pouquinho ou muito mais – afinal, o cara podia fazer qualquer coisa, né? Pois é, mas não fazia. E aí contaram umas histórias sobre pecados pré-existenciais. Pecados herdados. Disseram também que três eram um. E um monte de outras coisas que não conseguiam explicar direito, mas diziam que era ele, humano estúpido, quem não sabia entender.
Enquanto isso, muita gente afirmava que, sim, entendia. Que, sim, fazia sentido. Ué... E outros tantos, por sua vez, não davam a mínima.
Ele continuou existindo, do mesmo jeito, incompreendido e sem compreender. Mas querendo desvendar aquilo tudo. A fim de saber como começara essa coisa louca e qual seria o desfecho. Às vezes (que, às vezes, são muitas vezes), ficava cansado. Com medo de nunca descobrir. E com mais medo de descobrir e não gostar.
Logo percebeu que não era o único. Tolinho: havia um monte de gente que admitia não saber. Não entender. Não pertencer. Bem antes dele. Havia também outros deuses para acreditar, com outros enredos mal-desenvolvidos e ingenuamente fundamentados. Tanto quanto.
Via que algumas pessoas, certas de que pior não poderia ficar, aventuravam-se em não existir. Não sabia opinar se eram mais corajosas, mais covardes ou simplesmente loucas (e, portanto, mais livres?). Mas ele não cogitava essa possibilidade: queria existir, porque, às vezes – que podiam ser muitas vezes –, viver até era legal.
Vez ou outra , ele se esquecia das perguntas. Ocupava-se de urgências passageiras e suas soluções perecíveis. Saciava algumas fomes e reprimia outras. E de novo, outra vez, novamente.
Mas, às vezes, ele se lembrava da dúvida; recomeçava o martírio. Tudo bem, pensava: às vezes, acontecia mesmo, né?
Só que, às vezes, as vezes eram muitas.
Leandro Quintanilha
(minicertezas@ibest.com.br)