Minicertezas

Thursday, December 30, 2004

Branco encardido

Pela primeira vez me lembro do pedido que fiz à meia-noite do ano passado (ou deste ano ainda?). E acho que pela primeira vez deu certo. A dúvida é: tive mais fé e as sete ondinhas puladas na praia levaram o meu recado ou não deixei de pensar nesse desejo em nenhum instante, até se tornar verdade?

Com a vitória do ano passado, andei pensando no primeiro segundo de 2005 – na falta de mar - vou estar em São Paulo, fecharia os olhos bem forte e me lembraria que a gente consegue mesmo é o que escolhe. Era só tomar cuidado com o desejo. (Por garantia, pedi a um primo que pule por mim as tais ondinhas em Copacabana – dizem que dá certo).

Mas aí descobri que não escolhemos nossos desejos. Não esses, os absurdamente absurdos, que quando chegam não nos deixam espreitar sequer um ponto de partida. Não esses, que depois do ‘quero mas não tem como ser’, reviram a vida e, em um passe de mágica, impõe-se à nossa rotina. Eles simplesmente chegam e tomam posse.

Começo a ficar com medo. Um pensamento louco me espreita há alguns meses e acho que não vai embora. Temo que à meia-noite ele esteja comigo. (Temo ou torço?). Já não é mais responsabilidade minha. De qualquer forma, separei a roupa branca – de um branco encardido para que tenha paz, mas uma paz inquieta, que permita sempre a aflição das mudanças.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, December 27, 2004

Às vezes, sempre

De repente, estava vivo. Não conseguia se lembrar ao certo como aquilo tudo começou. Da primeira memória, não se recordava. Quer dizer, recordava, claro, porque era 'lembrança'. Mas não sabia dizer qual das lembranças mais longínquas era, de fato, a mais antiga. A primeira.

E, não sabendo como tudo começara, tinha a sensação de que sempre existira. Uma espécie de ilusão de ótica existencial.

De repente, estava vivo e nem se dava conta disso. Aos poucos (isto é, numa forma mais lenta de repentinidade), foi se conscientizando de que... era. Existia. Até então, achava normal existir. Muita gente existia. Existia gente demais até.

Só que, às vezes – e, às vezes, muitas vezes – existir não era muito legal, não. Havia momentos em que existir enchia o saco. E, quando existir ficava quase insuportável, ele começava a se perguntar por que, raios, existia. Justo ele!

Deram umas explicações meio esquisitas. Disseram que deus, um ser superior, onisciente, onipresente, onitudo, foi quem inventou a humanidade. E o resto das coisas vivas e inanimadas também. Esse deus, o inventor, era bom e magnânimo.

Só não explicaram por que um ser assim tão poderoso, tão criativo e tão legal poderia ver tudo, estar em todos os lugares e não fazer nada para que a existência ficasse um pouquinho mais, digamos, divertida.

Um pouquinho ou muito mais – afinal, o cara podia fazer qualquer coisa, né? Pois é, mas não fazia. E aí contaram umas histórias sobre pecados pré-existenciais. Pecados herdados. Disseram também que três eram um. E um monte de outras coisas que não conseguiam explicar direito, mas diziam que era ele, humano estúpido, quem não sabia entender.

Enquanto isso, muita gente afirmava que, sim, entendia. Que, sim, fazia sentido. Ué... E outros tantos, por sua vez, não davam a mínima.

Ele continuou existindo, do mesmo jeito, incompreendido e sem compreender. Mas querendo desvendar aquilo tudo. A fim de saber como começara essa coisa louca e qual seria o desfecho. Às vezes (que, às vezes, são muitas vezes), ficava cansado. Com medo de nunca descobrir. E com mais medo de descobrir e não gostar.

Logo percebeu que não era o único. Tolinho: havia um monte de gente que admitia não saber. Não entender. Não pertencer. Bem antes dele. Havia também outros deuses para acreditar, com outros enredos mal-desenvolvidos e ingenuamente fundamentados. Tanto quanto.

Via que algumas pessoas, certas de que pior não poderia ficar, aventuravam-se em não existir. Não sabia opinar se eram mais corajosas, mais covardes ou simplesmente loucas (e, portanto, mais livres?). Mas ele não cogitava essa possibilidade: queria existir, porque, às vezes – que podiam ser muitas vezes ­–, viver até era legal.

Vez ou outra , ele se esquecia das perguntas. Ocupava-se de urgências passageiras e suas soluções perecíveis. Saciava algumas fomes e reprimia outras. E de novo, outra vez, novamente.


Mas, às vezes, ele se lembrava da dúvida; recomeçava o martírio. Tudo bem, pensava: às vezes, acontecia mesmo, né?


Só que, às vezes, as vezes eram muitas.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, December 21, 2004

Diga que não estou

Já me chamaram até de autista. Amigos bem próximos, acredite. E quem não me conhece bem pode até achar que sofro de alguma espécie ainda mais grave de desordem psíquica. Mas eu sou só distraído mesmo.

Quando estudava inglês, costumava me atrasar: por vezes, pegava o ônibus errado... Entretido nos meus pensamentos, eu perdia contato com a realidade e era capaz de entrar numa condução qualquer, a primeira que passasse, acompanhando a multidão.

Outro dia, lendo no metrô, perdi a estação na ida. E na volta.

Mas pior do que os equívocos de transporte são os lapsos de convivência. Assistindo à tevê, por exemplo, ignoro quaisquer comentários das minhas queridas co-habitantes (há tempos, procuro um substituto para ‘roommates’). Ainda que sobre mim! Se estou escrevendo, ih, posso nem notar o fim do mundo.

A propósito, acabou?

Talvez, seja uma característica hereditária - minha mãe é capaz de abandonar o interlocutor no meio de uma conversa e sair para fazer outra coisa. Isso mesmo: no meio de uma festa, o cara pergunta como foi aquela viagem e ela vai se servir de empadinhas.

Fico mesmo especulando sobre a origem da minha distração. Talvez, não seja genética. Aos cinco anos, tive meningite, doença que pode causar danos cerebrais. Tá, fui socorrido a tempo e fiquei bem. Mas não estaria o meu ‘autismo’ relacionado a esse episódio?

Gosto de imaginar que poderia ter sido um gênio, não fosse a meningite na infância. Foi a doença que me rebaixou da genialidade à média, tenho certeza. Pior: à subcategoria dos medianos distraídos. Ai, bem que podiam ter me aplicado penicilina um pouquinho antes... Puxa vida.

A verdade é que sempre ponho a culpa na meningite. Seria também por causa dela que fiquei desafinado e perdi a habilidade de jogar videogame e esportes com bola? Gosto de pensar que teria sido um Da Vinci, não fosse aquela bactéria odiosa.

Ups, estou me distraindo do tema, né? Digamos que tenha sido proposital, uma distração ilustrativa.


Eu me distraio do mundo quando me ocupo dos meus pensamentos. Ou será que são as outras pessoas que se ocupam do mundo para se distrair de si? É uma possibilidade, considere-a. Meio tola e um tantinho arrogante, eu sei, mas e daí?

Se eu não tiver mesmo razão, a gente ainda pode culpar a meningite.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, December 16, 2004

Meu porteiro favorito

O prédio onde moro tem 400 apartamentos, 10 portarias e muitos porteiros. Um para cada dois blocos, acho que dois turnos e revezamento nos finais de semana. E é no final de semana que ele costuma estar lá: meu porteiro favorito.

Normalmente eles passam despercebidos, ficam sentados em um cantinho, olhando para o tempo sem nada mais a fazer do que pensar na vida. Sempre achei uma profissão ilustrativa - não por culpa deles, essa é mesmo uma função meio sem função.

Mas aí fiquei mal acostumada. O tal porteiro leva a profissão a sério. E criou meios de se destacar. É só um morador apontar lá de longe, no início da galeria (a entrada de meu prédio é quase uma rua, sem carros e com muitas lojas), que ele corre para chamar o elevador, depois espera para abrir as duas portas e, com o jornal na mão, dar boa noite ou bom dia. E só, simpático, sem invadir nossas vidas.

Ele põe seu banquinho entre as duas portarias que toma conta, sem atrapalhar a passagem e de forma a avistar de longe as duas entradas da galeria. Se o elevador demora, ele sempre sabe qual é o problema (a porta agarrando no quarto andar, mau contato no botão de aviso) e como resolvê-lo.

Às vezes está triste. E dá uma vontade de saber por quê. Nem sei o seu nome (e acho que ele me conhece como ‘a menina do 1.104'), mas me sinto próxima a ele – é a pessoa que economiza o meu tempo, diminui o meu esforço.

Ele deve gostar de ser porteiro. Não me lembro de já ter desejado essa profissão, mas penso todos os minutos em encontrar algo que eu faça com a mesma vontade.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, December 12, 2004

Não-eu? Eu, não

A existência é uma ilusão. Estamos aqui (no mundo) por insistência em existir. Mas quase nada do que valorizamos de fato é. Não, não, não: essas palavras não são minhas. Tenho lido um pouco sobre budismo.

A possibilidade de me converter é remota. Mas gosto dessas provocações. E acho mesmo que muito da vida que se leva é mesmo ilusória. Mas seria a vida em si a maior fantasia?

Para o budismo, do mesmo jeito que se sonha dormindo, sonha-se em vigília. A diferença é que os sonhos à luz do dia seriam mais, digamos, verossímeis. Talvez, nem isso: sonhos têm seus próprios padrões de realismo.

Uma vez sonhei que estava conversando com a Fernanda Torres. Éramos velhos amigos, sabe? Parecia tão real. Tão real como esse exato momento, em que escrevo diante do computador.

Só me dei conta do absurdo ao acordar. No sonho, eu não tinha discernimento – faltavam-me parâmetros de realidade. Agora, tenho me perguntando se também se pode acordar da vigília.

Segundo os budistas, iluminados são os que se desfazem da ilusão da existência. Do conceito de individualidade. Acho essa parte mais difícil de assimilar. O não-eu. Porque até agora a minha única certeza – ao menos a única certeza empírica – era o meu eu (coisa estranha falar de ‘eu’ na terceira pessoa; ‘eu’ não gosta disso).

Mas simpatizo com o budismo por insistir na tecla de que nos iludimos demais. Há tanta gente por aí achando que a vida é o trabalho. Ou que se resume a uma paixão. Ou que consiste na tola caça ao sucesso... Às vezes, andando por uma avenida movimentada, eu tenho vontade de bater palmas e gritar para a multidão: “Ei, pessoal! O que a gente tá fazendo aqui, hein?”

Sim, eu sei, não seria de bom tom. Mas não entendo como se pode levar a vida sem se ter certeza do que se trata (partindo do princípio de que se trata de alguma coisa). Cá estou, novamente apegado à minha ilusão da existência...

Gosto do budismo, mas é difícil acreditar quando se tem a pretensão de descobrir. Por isso, decidi: até que provem o contrário, vou acreditar que eu existo, sim. Ora essa.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@blogspot.com)

Thursday, December 09, 2004

Ajudazinha do passado

Toda vez que sento para escrever para o Mini é a mesma coisa: falar sobre o quê? Me vem à cabeça a frase repetida por uma professora na faculdade – “o que está bem concebido se enuncia claramente”. É verdade, se o tema é sólido, o texto flui. Mas o tempo é de incertezas. Não só aqui, nessa paginazinha da Internet. Olho o relógio, já é quase meia-noite de quinta-feira. Não posso, mais uma vez, deixar o blog desatualizado. Roubo do passado (mais precisamente de uma redação feita para tentar uma vaga no Curso Abril – acabaram gostando das linhas, mas não de mim) um texto de um tempo em que os desejos eram mais claros. E dá uma saudade daquela convicção! A proposta era escrever uma redação, de 4.200 caracteres, com o tema: Quem sou eu e por que escolhi o jornalismo como profissão. Aí vai...


"Por quase uma hora encarei meu rosto no espelho. Desta vez não buscava um fiapo de sobrancelha perdido, mas uma resposta: quem sou eu? Da experiência descobri apenas que só conseguimos nos olhar fixamente se escolhemos um olho e o meu preferido é o esquerdo. Por quê? Não sei, é uma atração irresistível, sem lógica (nem sou canhota – o que também não explicaria), um segundo sem pensar e meus olhos estão lá, naquele olho. Penso na segunda pergunta que preciso responder ainda hoje: por que escolhi o jornalismo como profissão. Na lista de argumentos possíveis, o mais forte não me sai da cabeça: a vida me conduziu assim como conduz meus olhos na frente do espelho.

Se as primeiras linhas fazem crer que fui levada pela maré em uma tranqüila opção por ser jornalista, não desista da leitura. As linhas não mentem, apenas foram mal interpretadas. Explico: depois que encarei meus desejos, fui sim conduzida por eles. Só que até parar em frente ao espelho eu já estava no terceiro ano de medicina. Mas essa é uma outra história que, só para não deixar dúvidas no ‘quem sou eu’, conto um pouquinho. Larguei o curso (na UFRJ!) na mesma semana e me inscrevi no último vestibular de faculdade pública com edital ainda aberto. Por sorte, fui parar na Uerj e me formo no final deste ano [2003].

Bem, chega de olhos e espelhos. Já que isto é uma redação, melhor me expressar com palavras diretas e esquecer as imagens. Há duas perguntas que esperam uma resposta.

Me chamo Patrícia Pereira, tenho 25 anos. Nasci em Volta Redonda e me mudei para o Rio de Janeiro quando comecei a fazer faculdade. Divido um apartamento com outras seis meninas, todas estudantes.

No Rio encontrei uma nova cidade e uma nova Patrícia também. Foi aqui que me deparei com uma gente estranha que questiona o sentido da vida e também com um povo ainda mais esquisito que gosta de subir no palco e contar histórias. Filosofia e teatro cruzaram a minha vida somente quando já estava aqui, no Rio. Nunca vou saber se essas influências surgiram por uma questão geográfica ou se fariam mesmo parte de meu amadurecimento seja onde for que estivesse.

Para minha mãe sempre neguei, mas o fato é que essas influências abriram as portas de um novo mundo e mudaram completamente o rumo de minha vida. De futura médica passei a jornalista e é aqui que o ‘quem sou eu’ se mistura ao ‘por que escolhi o jornalismo’.

Da vida, ainda não descobri o sentido. Mas vi de frente uma coisa que todo mundo costuma olhar meio de lado: ela é curta pra caramba (perdoe a expressão...). Com remédios dá para alongar alguns meses, quem sabe anos... Só o jornalismo multiplica a existência. Motivo um pouco egoísta, o jornalista compartilha histórias que nunca viveria por si só no período de uma existência.

A melhor definição (e a mais romântica também, eu sei) que li sobre o jornalista diz que sua função é “ver a vida e contar aos outros”. Não me lembro do autor, só sei de uma coisa: queria que fosse minha – a frase e essa vida.

Acho que veio do palco a vontade de contar histórias. Percebi que as reais são ainda mais dramáticas e interessantes e que elas existem aos montes no meio da multidão. Na verdade, é a arte que imita a vida. E, sem renegar os textos e os burburinhos impagáveis de uma montagem, decidi experimentar o real.

Não poderia deixar de fora os clichês da profissão. Gosto desta vida mambembe que alguns jornalistas têm a sorte de experimentar. Para quem tem, multiplicam-se não só as histórias e os encontros, mas também os lugares que se pode conhecer por ‘culpa’ da carreira. Afronta para alguns, a falta de horário, que transforma domingo em segunda-feira e faz do calendário uma mera burocracia, para outros é orgulho. Encaixo-me nesse grupo aí.

Para terminar esta lista de argumentos, um bem masoquista. Faço parte dessa casta que se permite passar horas solitárias escrevendo e gosta do martírio interminável que é escolher em cada linha a palavra exata. Será que já nascemos assim, com esses gostos estranhos? Deve ter algo a ver com a história de meus olhos, que contei mais acima. Não tem explicação, acontece.

Um saco de piraquê, meia garrafa de coca-cola e 4072 caracteres depois, eu me rendo: quero ser jornalista porque sim, ora bolas!"


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Monday, December 06, 2004

Sem sono

Difícil dar o dia por encerrado. Talvez, seja uma deficiência minha, não sei, mas ir para cama, enfiar-me debaixo dos cobertores é colocar um ponto final. No dia. E terminar um dia é como encerrar uma pintura ou uma crônica – a gente sempre acha que pode caprichar mais um pouquinho.

Agora é quase uma da manhã, de acordo com o reloginho da tela do computador. Já passou da hora dormir (faço um cálculo retroativo com base na hora de acordar; deduzo oito horas). Só que sempre acabo protelando a vigília, um hábito que maldigo todas as manhãs, quando toca o despertador na sexta hora. Ou quando perco a hora.

Mais um dia está se acabando e eu não arrumei o guarda-roupa. Agora há pouco, lavei toda a louça que estava na pia – devo reconhecer este pequeno êxito. Mas eu queria mais deste dia que cumprir tarefas domésticas...

Recapitulando, parece que fiz muita coisa. Cozinhei (comida pré-pronta, mas e daí?), vi alguns episódios repetidos da minha série predileta, comprei um par de tênis, fui ao teatro com amigos (duas vezes: na primeira, não conseguimos ingressos) e, ufe, embrulhei alguns presentes.

Passei várias horas entre pessoas queridas e fui um bom companheiro nos instantes em que fiquei sozinho. Ah, e lavei a louça, né?

Contando assim, parece que o dia rendeu... Ué, nem notei. Ainda assim, não dá vontade de terminar, não. A cama está logo ali, me esperando, convidativa na sua horizontalidade, enquanto cogito sobre o que passa na tevê e olho para o mouse tentado a navegar por alguns minutinhos.

Minutos que já devo ao meu sono e que farão falta amanhã... Putz, vem da sala a musiquinha da abertura daquela série que eu adoro. Parece que vai haver outra sessão de reprises. Deliciosa, a insônia deliberada.

Difícil dar o dia por encerrado neste horário nobre tardio, de luzes apagadas e nenhum expediente a cumprir (fora o do sono, evidentemente). Enquanto o resto do mundo dorme, posso fazer o que bem entender das minhas horas. Posso nem contá-las. Posso continuar acordado e não fazer absolutamente nada. Ah-rá!, posso tudo.

Basta esquecer que hoje já é amanhã.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Saturday, December 04, 2004

Quem é o seu?

Pensei sobre o assunto quando o ‘meu’ pegou o mesmo ônibus e, em vez de conversar comigo ou com um dos dez conhecidos ao redor, preferiu olhar a rua pela janela, na companhia de seus próprios pensamentos. Não, ele não é metido. No dia-a-dia a gente se esbarra: uma conversinha aqui, outra ali; eu sigo minha vida e ele a dele, sem nem suspeitar o encantamento que provoca.

E o mais difícil é isso. Essa proximidade ao mesmo tempo tão distante. Quase sempre são pessoas que escapam. Apesar da simpatia nas conversinhas casuais, parece impossível trazê-las para nosso mundo.

Quem é o seu ‘muso’ inspirador? Não vale aquele - o número um, o top na lista dos mais gatos. Falo de homens, mulheres, qualquer uma dessas pessoas que parecem não habitar o mundo dos comuns – onde chove, faz frio ou calor e o trabalho é sempre chato.

Tá, vou tentar ser mais concreta. É mais ou menos como ser vizinha do Chico Buarque. Ganhar “bom dia” pelos corredores, conversar cinco minutos na portaria, mas nunca conseguir a intimidade de sentar no chão da sala e ficar falando sobre a vida até de madrugada. Um desperdício! Você lamenta, ele nem nota.

Nota, pela janela, o mundo lá fora. Conversa com ele mesmo. E deixa uma pontinha de curiosidade sobre esse papo – que às vezes escapa, em linhas de um conto, de uma peça.

Há muitos ‘Chicos’ espalhados por aí. E talvez eles nem saibam. Ah, quesito número um: não fazem idéia de que são vistos dessa forma.


Patrícia Pereira

minicertezas@ibest.com.br