Minicertezas

Monday, November 29, 2004

Sinto muito pelo brigadeiro

Nós, adultos (aos 25, ainda não se sinto completamente confortável com esta condição), temos muito o que aprender com a psicologia infantil. Percebi isso depois de escrever algumas matérias sobre relacionamento entre pais e crianças e delas entre si.

Não que os pequenos sejam especialmente sábios. Nada disso: nós, adultos (já vou me acostumar, prometo), é que somos, ao menos na maior parte do tempo, emocionalmente infantis. Repare: cumprimentamos secamente quando ‘ficamos de mau’ e denunciamos ao chefe o que há algumas décadas contaríamos para a mamãe.

A gente (cá estou novamente na categoria adulta), tal como eles, às vezes derruba o tabuleiro no meio da partida simplesmente porque não sabe brincar. Os donos da bola viram donos de oportunidades de emprego. Acham que mandam no jogo – e, por vezes, mandam mesmo; crianças crescidas esquecem-se de que podem fazer bolas de meia.

Uma especialista em psicologia infantil disse-me que a melhor maneira de se acalmar uma criança é demonstrar empatia pelos seus sentimentos. Você não precisa dar o carrinho-que-não-pode-comprar-agora-quem-sabe-no-natal para evitar birra, basta explicar a situação e, importante, demonstrar que compreende a frustração do miniconsumidor por não levar o brinquedo.

E olha só: empatia funciona também com gente grande. Adulto, tipo eu (veja que progresso).

Tenho testado em quem já pode dirigir. As crianças têm razão em exigi-la – a empatia ampara e conforta, como colo de mãe. Mesmo que o brigadeiro fique para depois do jantar, é preciso que saibam, entendam e respeitem o quanto é chato, tão chato, não poder comê-lo imediatamente.

Se 5 ou 25, não importa (puxa, e no final não importa), a gente quer mesmo é ser compreendido. Porque a compreensão, em si, é quase tão doce quanto o doce.

E satisfaz sem estragar o apetite.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, November 23, 2004

Tão a sério

Fui chegando perto aos poucos. De frente para a prateleira, disfarcei o olhar. As mãos hesitaram, mas não teve jeito. Peguei. Nunca havia comprado um livro de auto-ajuda. E o début foi com “Não leve a vida tão a sério”. Confesso que o incentivo veio depois que o Ricardo Kotscho – meu jornalista queridinho – leu e disse ter mudado de vida (mudar de vida. Talvez esse tenha sido o incentivo de fato).

Uma inquietação, que só de vez em quando escapava pelas frestas do pensamento, resolveu saltar inteira e me atormentar a cada minuto: o que eu ando fazendo com eles, os meus minutos?

Não gosto da sensação de querer burlar o tempo, torcer para ele passar mais rápido e, enfim, chegar o fim de semana. Não gosto de lamentar a musiquinha do Fantástico e me encher de angústia no último plim-plim. Quero dormir para a noite passar bem rápido e chegar logo o outro dia, já disse em algum outro texto. Pior, já senti em algum outro tempo. E quero de volta.

Acho que andava me rendendo aos poucos. E travestindo esse conformismo com a desculpa de que havia crescido. Mas até onde a formalidade impera - nos dicionários - não encontrei que ser adulto é conseguir segurança arrastando dias chatos. Quem inventou isso? Cresci. Quero criar meu playcenter e ir para lá todos os dias.

Ah, o livro? Parei na página 49. Na verdade, precisava apenas do título.


Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Tuesday, November 16, 2004

Desculpe interromper, mas...

Alguma vez você já foi seqüestrado? Digo: alguma vez você já teve a sua atenção seqüestrada? Aposto que sim. Aposto e ganho. Mas aqui, por ‘seqüestrador’, entenda ‘criminosamente falante’.

Uma vez, no meio de uma festa, uma “amiga” contou-me a sinopse de uma obra do Émile Zola. Tinha 20 volumes. Quando ela discorria sobre a quinta geração de uma saga familiar, alguém passou com um álbum fotográfico; consegui escapar: “Um minutinho só? Adoro fotos.”

Adoro mesmo – ainda que uma imagem diga mais que mil palavras, fotos não falam.

Um episódio parecido aconteceu no aeroporto. O cara se aproximou para confirmar o número do portão de embarque e, de repente, era eu refém novamente. Ele foi passar um mês nos Estados Unidos, acabou ficando três até decidir que ficaria de vez. A temporada acabou durando cinco anos, tal como a nossa conversa. Sabe quantas perguntas eu lhe fiz? Nenhuma. Check out da minha vida.

Eu simplesmente me detesto nessas situações: hum-rum; ah, sim; puxa, mesmo?; sei, sei... Difícil escapar sem parecer, deixe-me encontrar a palavra certa, fugitivo. Perceba o quanto é injusta a legislação do convívio social: nesses casos, grosseiro não é o seqüestrador, mas a vítima que ousa abandonar o cativeiro.

Puxa, assim até parece que não gosto de escutar, né? Mas eu gosto, acredite. Sou jornalista: meu trabalho consiste basicamente em entrevistar. Fazer perguntas e ouvir as respostas, com muita atenção. E brigo pelo papel do amigo confidente. Porque gosto de saber, para entender.

Mas não é assim que funciona, vir (dos Estados Unidos ou da Namíbia) chegando e falando. É preciso criar um clima, preparar a narrativa, envolver-me no assunto, brincar com pausas e flexões, além de – super-hiperimportante – tomar cuidado com o tempo. Há também de se prestar atenção nos meus comentários, rir das minhas piadinhas tolas, escutar eu escutando.

Diálogo é quase sempre melhor que monólogo. Posso ser platéia, mas também quero ser protagonista.

Ups, noto que estou falando demais sobre falar demais. Antes que você fuja com a desculpa de folhear um álbum fotográfico, um último argumento em minha defesa: a minha metáfora favorita (eu juro) sempre foi aquela de quem se dispõe voluntariamente a escutar, “sou todo ouvidos”.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, November 11, 2004

Tempo bom

Adoro quando chove.

Na minha terra, só chove de verdade no final do ano. Hoje, moro numa terra em que chove freqüentemente. E toda vez que chove, não importa se é novembro ou abril, sinto que o ano está acabando. E daí se for agosto? Chuva me lembra férias escolares – entrega de boletins, revelação do amigo-secreto. E daí se for dezembro? Férias de adulto são tiradas em meses esquisitos – as minhas serão em junho.

Devo ir para a minha terra nas férias. E, lá, não chove em junho.

Mas, como disse, sempre que chove (aqui ou lá), sinto que o ano está acabando. Sabe aquele cheiro úmido da chuva que passou? Pois é, é cheiro de Reveillon. Mas não sei dizer se cheiro de chuva é o cheiro do ano que acabou ou se é o cheiro, antecipado, do ano que já vem.

Eu também gosto de tomar chuva. E isso não tem nada a ver com a virada do ano. Uma vez li numa revista (ou alguém leu e me contou, não tenho certeza) que quem corre na chuva se molha na mesma quantidade de alguém que percorre o mesmo trajeto andando.

Varia só o tempo de exposição. À chuva. Que, para qualquer um, terá sido pluviometricamente a mesma. É só escolher se você se entrega de vez ou se foge, inutilmente.

Eu carrego um guarda-chuva na mochila todos os dias. Estranho, porque gosto de chuva e gosto especialmente de tomar chuva. Levo o guarda-chuva porque meu cabelo, diferente de mim, detesta umidade. Ou é a chuva que não gosta dele, preciso averiguar. O fato é que eles não se dão.

Então, decidi assim: na ida, eu não me molho. Mas, na volta, se chover, não corro nem me protejo, não.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Wednesday, November 10, 2004


Perdoe-me pelo sumiço, sim? Depois de duas viagens e uma virose, estou de volta.

Leandro Q.