Minicertezas

Monday, October 25, 2004

De novo, o brinquedo

Acho que tinha uns oito anos quando ganhei um par de patins. Foi o melhor brinquedo da infância. Não queria tirá-lo dos pés. A vida era tão sem graça antes e eu nem havia reparado. Era bom andar assim e queria seguir o resto dos dias deslizando pelas calçadas. A alegria durou pouco. Na primeira semana um primo distante pegou os patins emprestados, torceu o pé e quebrou a rodinha. Remendaram, mas nunca mais foi o mesmo. A cola sempre soltava, eu precisava esperar horas para consertá-lo. Ainda me divertia, mas com uma pontinha de medo de um dia não dar mais certo e o brinquedo se partir de vez. Eu insistia. Afinal, era tão bom! Até que sumiu. A vida voltou a ficar sem graça, só que a partir de então eu sabia.

Anos depois, ganhei um novo par. Sem rodinhas. Ele falava - com sotaque carioca -, andava de All Star e sentou ao meu lado em um processo seletivo. De novo, veio a sensação: como não percebi que a vida era tão sem graça antes? Era bom rir com ele. Compartilhar as dúvidas. Falar da vida. Queria que a semana de avaliação não acabasse nunca. Só para tê-lo por perto. Mas o tempo se esgotou e tive de me contentar de novo com as emendas: quem sabe, algum dia, encontros por aí.

E, para minha surpresa, os encontros vieram.

O nome dele é Márcio. E ele apronta comigo. Marca e desmarca programas. Diz que vai ligar e não liga. Até me convida para festas e não aparece. E, na maior cara-de-pau, reclama por e-mail que “gosta mais de mim do que eu dele”. E eu insisto. Afinal, é tão bom! Bastam dois minutos de conversa e, de novo, eu me lembro por que a vida tem mais graça com ele por ali.

É um brinquedo que já partiu e foi remendado várias vezes. Espero que não suma de vez.


Patrícia Pereira

Monday, October 18, 2004

À fantasia

Descobri que gosto de festas. Desse deslocamento temporário da realidade, com jogo de luz, mesa de som e drinques que eu não sei fazer em casa. Festas começam tarde e terminam tarde demais, a despeito de um mundo com horários tão pouco flexíveis. E, mesmo que a festa esteja ruim, a gente sempre fica mais um pouquinho. Porque a festa, mais que a vida, pode ficar melhor. Prolonga-se a festa para adiar a vida. Quem sabe o DJ não toca aquela música?

A festa a que fui no sábado era à fantasia. Queria ir como Peter Pan, mas, na loja, o verde da roupa ficou esquisito. A realidade da fantasia não correspondia à minha fantasia da fantasia. Então, pensei em ser padre, mas me ofereceram uma batina comprida demais. Para ouvir pecados alheios, teria de me penitenciar fazendo a barra. Adiei a heresia.

Tudo parecia perdido quando vi uma peruca na prateleira. Em vez de cabelos, chamas. Uau, cabelos de fogo! Chamas de verdade; não uma metáfora para madeixas ruivas. Bem, de verdade verdadeira não eram. Espuma, claro - não tenho vocação para incendiário.

Tentei inventar um personagem para justificar a cabeleira. Pensei em palito de fósforo (aceso), carvão em chamas, Homem-Tocha... Nada parecia colar – fui com a peruca assim mesmo. Contava apenas com o apoio da Chapeuzinho Vermelho, da She-Ra e da Bonequinha de Luxo, entre outras heroínas gay/infantis, minhas amigas.

Os porteiros riram do meu ‘visú’, mas valeu a pena. Na festa, alguns duendes me abordaram para saber que fogo era aquele. A Nega Maluca, tão culta, me explicou que há um personagem folclórico com cabelos de fogo, o Curupira. Há também um coadjuvante de uma animação japonesa com o mesmo "penteado", soube mais tarde.

Bebi dois drinques e fiquei meio sóbrio. Conversei, dancei, cantei (não de forma audível, evidentemente) e enfrentei fila no banheiro, tal como em toda balada. Depois que me acostumei com a presença do Elvis Presley, magro outra vez, e aceitei o fato de haver duas Mulheres Maravilhas e nenhum avião invisível (ou havia?), a festa à fantasia foi se despindo de suas peculiaridades. Chapeuzinho Vermelho vomitou no jardim, enquanto a dançarina espanhola, com sua saia preta comprida, jurava que não era a Olívia Palito: “Se fosse, usaria um coque, oras!”. E tudo ficou normal.

Diversão até que cansa, mas a gente não se satisfaz, né? Poderia ter partido às três e meia, como fez o pirata. Aliás, não seria mal ter partido com ele. Mas fiquei até as cinco, para confirmar que festa à fantasia, em fim de festa, é como uma festa qualquer.

Tanto faz o figurino: em essência, toda festa é à fantasia.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)


Friday, October 15, 2004

Ufa, foi

Ando muito preguiçosa (ou sempre fui?). Prefiro ler a escrever. Não, não vou dar mais uma desculpinha para meus atrasos. Fica combinado assim: vocês já sabem que não tive tempo ou idéias, o que é muito mais provável.

Nessa minha preguiça de escrever e gosto por ler, me deparei com uma frase de Julien Green (seja lá quem ele for). : "O pensamento voa e as palavras andam a pé. Esse é todo o drama do escritor". O meu drama é outro. Acho muito mais difícil domar as idéias. Ou melhor, alcançar as idéias. Parece que elas passam todas correndo enquanto eu estou de costas. Escrever sobre o quê? Ufa, foi.

Patrícia Pereira

Monday, October 11, 2004

Presente feliz

Sempre achei que a saudade fosse superestimada. Os poetas podiam se ocupar de outra coisa. Do presente, por exemplo. E nostalgia soava como perda de tempo. Tempo perdido com o tempo perdido.

Até que aconteceu comigo. O fato é que a gente fantasia sobre o passado com o mesmo otimismo que se projeta no futuro. Esperança é, sim, retroativa.

Quatro dias em casa (ou devo dizer ‘na casa dos meus pais’?) depois de quatro meses distante. Cheguei com o título de convidado de honra – havia mousse de limão na geladeira. A cidade estava diferente: mudaram as cores dos prédios sem me consultar. Os lugares bonitos pareciam um pouco gastos. Os gastos foram reformados e ficaram mais bonitos que os bonitos. Alguns dos mais bonitos nem existiam. Existiam?

Em casa, duas paredes também mudaram de cor. Ah, meu quarto foi depenado. Parte da mobília foi redistribuída pela casa. A tevê foi para o quarto dos meus pais. O computador e a escrivaninha, para o do meu irmão. E os aparelhos de ginástica (aqueles que todo mundo compra e todo mundo não usa) foram para lá. Preencher os espaços vazios e oferecer quinas para as canelas do hóspede preferencial – eu.

Alguém viu meu porta-lápis?

O porta-lápis se perdeu na mudança da minha mudança. A vida prosseguiu sem mim. Quando era criança (e mais filósofo; e mais egocêntrico), sondava: será que as outras pessoas realmente existem ou são todas produto da minha imaginação? Parece que sim, existem. Chove mesmo na floresta quando não há ninguém olhando...

Mas, depois da primeira noite no quarto que não me esperou, já comecei a me ambientar. Como se os aparelhos de ginástica velassem meu sono – e meu sedentarismo – há muito tempo. A madeira do chão continuava gostosa de se pisar, lembrava dela assim. E, um instante antes de atender ao telefone, eu já sabia que era para mim e era um amigo. Estava em casa outra vez, de vez, provisoriamente.


Saudade é um presente feliz, com mousse de limão.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, October 07, 2004

U-ni-du-ni-tê

Um dia, sem perceber, a gente escolhe abrir os olhos. E escolhe sorrir. Andar. Correr. Brincar. Chorar. Um dia a gente escolhe a boneca em vez do carrinho. E escolhe um amiguinho na sala. Uma menina chata para ficar longe. Um dia a gente escolhe não gostar de manga. E decide que bolo de chocolate é a melhor comida do mundo. Aí a gente escolhe estudar para a prova. E no dia seguinte decide jogar tudo para o alto e correr o risco de ser reprovado. Um dia a gente escolhe andar de roda gigante e ver a cidade lá de cima. E então escolhe que já é bem grandinho para ir ao parque. Um dia a gente escolhe que bonito é o garoto magro, de cabelo liso, calça jeans e all star. Escolhe escolher que vai ter quatro filhos e nunca se casar. Um dia a gente faz um X no formulário e escolhe o que a gente quer ser pra sempre. Mais na frente, uma voz lá do fundo nos convence a escrever essas letrinhas sobre a vida em vez de letrinhas em itálico com palavras mais complicadas. Aí a gente escolhe rasgar o formulário que virou matrícula e pegar um novo. E escolhe o X em outro quadradinho. Quem faz o u-ni-du-ni-tê por mim? Um dia a gente escolhe ir morar bem longe. E escolhe a casa, os móveis, até as pessoas. Um dia a gente escolhe pensar se não está tudo errado. Mas dá uma preguiça.

Patrícia Pereira

Monday, October 04, 2004

Manga com leite faz bem

Antes, bem antes, eu achava que a gente aprendia tudo. Até acabar. E depois que aprendesse tudo era só viver do jeito certo. Isso passou. Aprendi que não se aprende tudo, não. E fui aprendendo mais. Até aprender que a gente aprende muita coisa errada.

O trabalho dignifica o homem. É impossível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. O ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre. Manga com leite faz mal. A primeira impressão é a que fica. Bom menino é o que obedece. Homem não chora. Amor de pai e mãe é incondicional. Ingerir líquido durante as refeições incha o estômago e engorda. Não se pode ser feliz sozinho. O que não tem remédio remediado está. Estude que você passa. Para todas as outras existe Mastercard.

Só que, um dia (quando não há ninguém por perto), você experimenta sorvete de manga e não morre. Sobrevive para saber – e espalhar – que é uma delícia. Mas cada um sabe do seu desaprendizado, eis a inutilidade de qualquer aconselhamento. Neste curso incoerente e prolixo, somos todos inevitavelmente autodidatas.

Você eu não sei. Mas eu: assim que terminar de desaprender medo por medo, as minhas prioridades, pode deixar, eu reinvento.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Saturday, October 02, 2004

Primeira pessoa do singular

Sempre fui discreta. Mesmo no blog, esse pequeno noticiário sobre mim mesma, criei artimanhas para evitar a exposição dos verbos em primeira pessoa. Nunca deixei de usá-los - não dá, né? Mas eles vagam pela página como eu pelo mundo: só emprego o eu para falar de vocês, nunca de mim.

Não que eu escolha os temas pensando em me esconder (como também não censuro minhas falas no dia a dia). A tática é brincar com as palavras sem deixar que elas me denunciem. Algo como não dizer a verdade sem precisar mentir. E nisso sou craque. Ou era, ou pensava que era...

Me vi despida esta semana. O endereço do Minicertezas caiu nas mãos de meu editor. E nem adiantou disfarçar, ele decorou certinho o nome. O que mais mexeu comigo não foi a possibilidade de ser lida por ele, em especial. Foi me deparar com a realidade: posso ser vista inteira entre as frestas de uma linha e outra.

Aí ficou difícil encontrar assunto. Encontrar palavras. Encontrar um tempo para sentar em frente a esta tela e escrever algum texto.

Tá, fica como desculpa para esse atraso. Prometo não mais postar na data errada. Podem acreditar, há razões sérias para respeitar o prazo: o Leandro não tem a menor vocação para Sandy - já ameaçou me abandonar e fazer logo seu “blog solo”.

Patrícia Pereira