De novo, o brinquedo
Acho que tinha uns oito anos quando ganhei um par de patins. Foi o melhor brinquedo da infância. Não queria tirá-lo dos pés. A vida era tão sem graça antes e eu nem havia reparado. Era bom andar assim e queria seguir o resto dos dias deslizando pelas calçadas. A alegria durou pouco. Na primeira semana um primo distante pegou os patins emprestados, torceu o pé e quebrou a rodinha. Remendaram, mas nunca mais foi o mesmo. A cola sempre soltava, eu precisava esperar horas para consertá-lo. Ainda me divertia, mas com uma pontinha de medo de um dia não dar mais certo e o brinquedo se partir de vez. Eu insistia. Afinal, era tão bom! Até que sumiu. A vida voltou a ficar sem graça, só que a partir de então eu sabia.
Anos depois, ganhei um novo par. Sem rodinhas. Ele falava - com sotaque carioca -, andava de All Star e sentou ao meu lado em um processo seletivo. De novo, veio a sensação: como não percebi que a vida era tão sem graça antes? Era bom rir com ele. Compartilhar as dúvidas. Falar da vida. Queria que a semana de avaliação não acabasse nunca. Só para tê-lo por perto. Mas o tempo se esgotou e tive de me contentar de novo com as emendas: quem sabe, algum dia, encontros por aí.
E, para minha surpresa, os encontros vieram.
O nome dele é Márcio. E ele apronta comigo. Marca e desmarca programas. Diz que vai ligar e não liga. Até me convida para festas e não aparece. E, na maior cara-de-pau, reclama por e-mail que “gosta mais de mim do que eu dele”. E eu insisto. Afinal, é tão bom! Bastam dois minutos de conversa e, de novo, eu me lembro por que a vida tem mais graça com ele por ali.
É um brinquedo que já partiu e foi remendado várias vezes. Espero que não suma de vez.
Patrícia Pereira
