Minicertezas

Monday, September 27, 2004

Trégua

Outro dia, alguém me disse que tenho escrito coisas tristes. Engraçado, porque eu havia me dito mais ou menos a mesma coisa, mais ou menos no mesmo dia. Tentei me justificar (comigo mesmo), argumentando que aquela melancolia não era minha. Era um mal-entendido, fruto da minha velha dificuldade de encontrar as palavras certas.

Sou um otimista pouco fluente. E só.

Okay, existe uma ínfima possibilidade de eu estar tentando me enganar. Justo eu que abomino o mau humor. Que considero pessimismo falta de educação. Sim, porque a vida é dura e, como profetiza a canção, não poupa ninguém. E, às vezes, a esperança é o único meio de se prosseguir. Às vezes, não: quase sempre (ops, estou sendo melancólico outra vez? – peço perdão). Quero dizer que amargura contagia e envenena. E ninguém tem o direito de tornar essa jornada mais difícil para os demais. Tem?

Não nos neguemos, contudo, nossa cota de desabafo. Quando a gente compartilha dor, faz doer um pouquinho mais a dor do outro. Mas é esse alívio fugidio, paliativo, que faz a esperança persistir. E é o meio de comunicarmos ao outro o desejo de sermos comunicados sobre a nossa insatisfação. Como se precisássemos de um mensageiro externo para dizer o que já sabemos a ponto de falar (mas não de ouvir).

Então, não vou me comprometer a calar minha dorzinha. Não posso. Façamos, então, um acordo: vou falar mais sobre minha crença na vida, meu entusiasmo por desvendar esta experiência incerta. E aí você me comunica disso também, tá?

Estamos combinados.


Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, September 23, 2004

Quebrando regras

E se eu decidisse não mais participar disso tudo? Se eu quisesse o mundo do zero, sem nenhuma das regras já criadas quando eu nasci? Por que não nos permitem riscar a divisão em ruas e propriedades e andar reto enquanto der na telha? Por que não podemos esquecer a convenção das horas e contar os dias pela lua? (Ou abandonar de vez as contas)

Não dá. Estamos presos a essa brincadeira chata que nunca acaba. Abandonar a cama no horário marcado, fazer o que não faria, dormir para acordar.

E todos os planos, que nunca passam de sonhos, são uma tentativa de, ao menos, ser café-com-leite nesse jogo. Estar lá, mas de certa forma imune, podendo quebrar as regras e não ser punido.


Patrícia Pereira

Wednesday, September 22, 2004

Números atrasados

Juro. Não foi preguiça. Alguém me roubou horas, dias inteiros. A quarta-feira da semana passada existiu? Quando vi, era domingo. E lá estava o Leandro, sentado na frente do computador para postar pontualmente à meia-noite.

Me veio uma frase, do baú da adolescência: “Só as boas meninas fazem diários, as más nunca tem tempo”. Enquanto não escrevia, o que andei fazendo? Humm, pesquisa de campo, digamos.

Dormi várias horas para ver se sonhava com um tema. Pensei na vida. Pulei de um livro a outro, de um site a outro, de um amigo a outro. Por que é mais fácil escrever quando se está triste?

Escrevo quando tenho preguiça da vida. Quando decido simplesmente viver não sobra tempo.


Patrícia Pereira

Monday, September 20, 2004

Faltou o momento iogurte

Quando eu estava na terceira série, mal podia esperar pela quarta. Parecia tão chique ter um professor para cada disciplina. E, também, a vida de adolescente tinha tudo para ser mais divertida. Não foi. No ginásio, fiquei ansioso pelo ensino médio, quando meus pais finalmente me deixariam mudar de escola. Dito e feito: em três anos, estudei em três colégios diferentes (o próximo sempre parecia mais promissor). Mas, em cada um deles, eu queria mesmo era chegar à universidade – minha vida mudaria lá. Cheguei; e mudou.

“Hum, se eu ao menos saísse da casa dos meus pais...” Saí. E daí?

Nos últimos tempos, tenho me repetido a mesma pergunta: será que enfim chegou a hora de ser quem eu gostaria de ser? Hoje, percebo que tudo saiu mais ou menos como planejado. Se esta fase fosse um supermercado, eu já poderia passar no caixa. Porque minha listinha já foi cumprida à risca. Pensava que houvesse, neste ponto, uma sensação reconfortante de realização. Como quando, depois das compras, você entra no carro, bate a porta e saca um iogurte das sacolinhas.

Mas nem “ufa” nem “uau”.

E como ainda faltam algumas décadas para a aposentadoria, flagro-me especulando não sobre o futuro. Sobre o passado. “Ah, se pudesse ter oito anos outra vez...” Sim: eu, saudosista. Precisamente o mesmo cara que fazia contagem regressiva para o futuro chegar. Cá estou agora, sem saber o que fazer com um tempo presente defeituoso que acabei de tirar da embalagem. Consumidor-vítima da propaganda enganosa da própria fantasia. Ué, não era o pessimismo que fazia mal? Tudo o que eu queria era um pouquinho de vida, um instantezinho só, sem pressa nem saudade.

Eu só sei que a terceira série acabou.

Leandro Quintanilha


(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, September 19, 2004

Perdão, caro leitor

Acometida por uma violenta crise de preguiça, a jornalista Patrícia Pereira reservou-se o direito de não publicar (ou melhor: nem escrever) sua crônica da semana.

Sunday, September 12, 2004

Cativeiro

Hoje perdi 40 minutos no ponto de ônibus. Outros 30, no ônibus. E mais sete horas no trabalho. Computemos outra meia hora no trajeto de volta para casa. Era o maldito plantão de fim de semana. Mas não foi só o que perdi. Tenho perdido tempo toda vez que penso na escala de duas-semanas-não-uma-sim do plantão de finde. Porque, mesmo nas horas vagas, sofro por antecipação das de labuta.

Hora extra de ressentimento.

Fazer plantão no final de semana confunde o relógio psíquico. É como se eu vivesse oito segundas-feiras consecutivas, até finalmente chegar na terça-feira de uma semana genuína, dessas que culminam em fins de semana dos legais ­– isto é, de folga.

Agora estou aqui, às duas da manhã, tentando conceber algo pretensamente genial que não pareça pretensamente genial. Me perdoa, vai: não foi só tempo o que perdi. Gastei energia. Não é fácil sobreviver ao cativeiro de um calendário com oito segundas-feiras. E amanhã (ou hoje mais tarde) lá estarei eu, de volta ao trabalho. Reprisando a segunda-feira pela oitava vez, como se fosse a primeira.

Mas um pouquinho mais feliz. Por saber que, desta vez, a terça-feira vem.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)


Thursday, September 09, 2004

Donos de mim

Escrevi quatro nomes na tela. Cada um, a seu modo, manda um pouquinho em mim. São garotos que me fazem trair todos os meus princípios: com eles sou ciumenta, deixo meus projetos em segundo plano, me assusto com a possibilidade de perder e não tenho o menor domínio sobre o meu próprio tempo livre – faço qualquer coisa, só quero estar perto.

São tão diferentes. E ocupam espaços diferentes em minha vida. Um deles faz brotar lágrimas em meus olhos toda vez que penso quanto tempo vou ficar sem ver sua carinha.

O outro me fez entender minha mãe. Explico. Ela ganhava bombons e, em vez de comer, guardava para mim, que estava em casa. Ficava com pena - será que ela não tem vontade? A dúvida durou até o dia em que troquei a gelatina boa pela ruim sem o menor vacilo e me senti feliz por isso.

Um deles me jogou sorvete na cara, me lambuzou toda com uma casquinha de chocolate do McDonald’s. E nem assim consegui ficar brava. Sofri pensando quem mais me jogaria sorvete quando ficou longe um ano e 1.150 quilômetros.

Adivinhar as vontades vira um passatempo. Criar pequenos rituais aproxima. Sempre me pego adaptando minha agenda à deles. E meus sonhos aos deles. Até de endereço já mudei, mais de uma vez.

O difícil é conviver com o mundo. Amigos são poligâmicos por natureza: como saber se não divido os segredos com quem eles também dividem os segredos? E como não ficar mordida de ciúmes quando acho que não ocupo o mesmo espaço na vida deles?

Um dia me perguntaram se já amei alguém. Já, já sim. Sei exatamente o que é o amor. Mesmo sem nunca ter amado de verdade nenhum de meus namorados.

Patrícia Pereira

Monday, September 06, 2004

Faça-me o derradeiro favor de não me fazer mais favores

Tenho pensado sobre gentilezas e as pessoas que as praticam.

E separo (as pessoas e as gentilezas) em duas categorias, voluntárias e voluntariosas. Posso falar primeiro da primeira? Seja gentil: permita-me. Posso apreciá-la mesmo sem cogitar minha própria generosidade. Sim, porque esse tipo de doçura, a primeira, não exige recíproca. Gratidão? É facultativa – não importa.

Sabe aquela amiga que lava a louça para você não se atrasar? Ou: quando está gripado e sua mãe lhe prepara uma canja. Ou ainda: quando ela lhe prepara canja só porque você tem vontade. Para o gentil voluntário, o que você deseja conta. E basta. Se seu namorado já gravou o episódio que você perdeu da série que você não perderia, sabe do que eu estou falando – daquela gentileza sem créditos cuja única expectativa é lhe fazer um pouquinho mais feliz.

Passemos para a gentileza voluntariosa. Hum, sobre ela é difícil falar. É a gentileza da mão que lava a outra. O favor quase mesquinho de quem veladamente (ou nem tanto) reclama compensação. Uma gentileza que exercita a vaidade do autor. E conta com reconhecimento, espera afagos e, prioritariamente, demanda contrapartida. De quem lhe empresta um casaco no outono a pretexto de abrir um precedente para, no inverno, exigir-lhe um cobertor.

A gentileza voluntariosa pretende estabelecer, para si, uma previdência interpessoal. Ajuda-se hoje para contar com, amanhã. É solidária por um instinto antecipatório de sobrevivência. Cuida do outro na expectativa de amparar a si. A gentileza voluntariosa ­– honesta de uma maneira torpe e tão compreensível, por ser um viés da solidão – é frágil, inútil e triste.

Porque afeto não se cobra e é imune a qualquer precaução.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)




Thursday, September 02, 2004

A miopia de cada um

Vou contar um segredo: é mentira que um dia a morte chega. Ah, esqueça também o parabéns e as velinhas - não dá para calcular os anos de vida. Ensinaram tudo errado. Concorda que estar morto é não conseguir mais perceber o mundo? E se você descobrisse que já não o percebe tanto assim no dia-a-dia?

Viver exige talento. Um cigarro aceso pode ser só um vício que passa despercebido, mas pode também ser uma cortina de fumaça a tapar o rosto e proteger as idéias que teimam em não sair. Viu a diferença? Quando li isso em um jornal, me senti em coma. Incapaz de extrair um décimo dos significados desse mundo que me cerca.

Nada novo. Nada desconhecido. Nada que você não poderia ter percebido. Mas não percebemos na maioria das vezes. A gente acaba vivendo de migalhas, de frações do cotidiano. Se condensasse tudo, quantos anos de vida daria?


Patrícia Pereira