Minicertezas

Monday, August 30, 2004

Quase isso

Sempre tive convicção de que me expresso melhor escrevendo. Não fosse norma vigente de boa conduta conversar pessoalmente sobre assuntos importantes, usaria o teclado toda vez que precisasse terminar uma relação, pedir demissão do emprego ou fazer uma grande revelação à família. Organizaria tópicos, construiria metáforas, desdobraria-me numa prodigiosa geografia de vírgulas, pontos e parágrafos. Tudo por escrito.

Tenho certeza de que assim, protegido do semblante discordante do meu interlocutor, meus argumentos ficariam mais claros e elucidativos. A dissertação fluiria livre de interrupções da minha ansiedade ou dos interesses maculados de quem ouve. Ainda que pouco convincente (porque, muitas vezes, não tenho mesmo razão), minha tese seria mais nítida, inteligível.

De fato, não me importa que eventualmente desgostem de mim ou das minhas opiniões mais impertinentes. Mas me irrita a possibilidade de que porventura se sintam ofendidos, desrespeitados ou mesmo traídos ao me entenderem mal. Ou melhor (ou pior): quando me expresso mal.

É isso, mas não é bem isso. Digo que me prefiro escrito a falado, mas, também no clac-clac de dedos e teclas, percebo-me vez ou outra diante do desnível (ia dizer ‘abismo’ e soou como exagero...) entre o que desejo dizer e o que acabo expressando.

No começo da faculdade, comecei a escrever meu primeiro romance. Desisti na página 30, por ‘falta de vocabulário’. Não podia lidar com a frustração de que o livro era infinitamente melhor na minha cabeça que no papel. Como no discurso oral, não consegui expressar exatamente o que pretendia. E lidar com a precariedade das palavras é encarar a própria impotência diante do mundo. Ah, nunca retomei o tal romance.

Tenho percebido, contudo, que a dificuldade de textualizar pensamentos e emoções tende a diminuir com o tempo. Vai-se ficando mais sensível à sutileza das coisas e dos estados das coisas. Ou algo parecido com isso. Ainda assim, tudo o que falo e escrevo (segredo nosso, tá?) vira uma versão fosca, empobrecida e, às vezes, um tanto caricata do que era para ser dito.

Mas entendo (e um dia talvez aceite) que possivelmente nunca diga palavra por palavra do que desejo expressar e jamais me entendam rigorosamente como fora planejado. Porque a lapidação das idéias é, em si, íntima, subjetiva e fantasiosa.

Só me assombra o mistério: aonde vão parar as palavras que vivo e não consigo verbalizar? Ou não ouso. Ou digo em frases truncadas. Ou falo por meio de construções lingüísticas tão desconexas que subvertem a pretensa honestidade do original. Aonde, ãh?


O que penso, falo e não consigo dizer se dissipa no discreto instante de silêncio em que eu e você nos tornamos incomunicáveis.

Leandro Quintanilha

(minicertezas@ibest.com.br)

Thursday, August 26, 2004

Por acaso, amigos

Uma veio morar comigo depois que colei um cartaz na faculdade. Outra estudava na minha sala desde a quinta série. Teve a amiga da vizinha de uma das que moravam lá em casa. Ah, e a da turma da faculdade que trouxe mais duas amigas de Petrópolis. Assim, meio orkut, com pequenos vínculos a nos unir, morei com 23 pessoas diferentes até hoje (família não conta) – e dividi quarto com sete.

Quando terminou o curso Estado, queria mesmo que os 16 focas de fora da cidade montassem uma grande república. A idéia não deu certo, nem levaram muito a sério, na verdade. O que consegui foi sair na frente na hora de alugar o apartamento e “roubar” logo três de nossa sala.

Acho que é um trauma de infância essa vontade de estar sempre rodeada. Minha avó dizia que iria construir um prédio com cinco andares no terreno da casa dela. Em cada pavimento moraria a família de um de meus tios. Sonhava com esse dia, somos 15 primos! A obra, sem cimento, não passou de ficção.

Como nunca chegou o tal dia, sem perceber construí meu próprio condomínio dos sonhos. Morei com todos os meus melhores amigos. Dividi com eles os segredos, as novidades e as compras e as tarefas da casa.

Quando os primeiros se mudaram, fiz de tudo para que não fossem. É difícil abrir mão da convivência. Depois descobri que suportaria. Mais: fui me viciando em conhecer os que chegavam. Tem sempre um mesmo ritual. Primeiro o estranhamento, depois umas conversinhas sobre a vida e aí aquele ser desconhecido já entra no seu quarto sem a menor cerimônia.

São esses os seres que povoam minha vida. E que deixam um grande deserto nas incontáveis mudanças (de lugares e de pessoas). Se não posso reunir todos em uma mesma casa, que seja nessa pagininha aqui.


Ah, também já morei sozinha, por falta de opção. Quase morri de tédio.

Patrícia Pereira

Monday, August 23, 2004

Lápis coloridos

Criança gosta de brincar de adulto. De ser mãe, pai, cozinheira, motorista, polícia, ladrão. E, claro, médico. Que é, entre estetoscópios e apalpadelas, brincar de ser homem e/ou mulher. Adulto, enfim.

Mas, quando eu era criança, gostava mesmo de brincar de escritório. Meus primos e eu administrávamos grandes corporações, assinando papéis pautados com lápis coloridos. E nos organizávamos numa hierarquia etária, dos seis aos doze. Nesta ordem, do contínuo ao presidente.

O legal de ser criança e brincar de adulto era imitar o semblante sério, determinado e um tanto indiferente de quem já cresceu. Quando eu tinha sete e não assimilava esse mundo doido, queria crescer logo para entender como tudo funcionava. E brincar de adulto era reforçar essa crença feliz de que o mundo faria sentido (e eu saberia sempre como me comportar) a partir dos dezoito.

Uma vez, li num livro didático de filosofia algo interessante sobre a forma infantil de perceber o mundo. A primeira vez que um bebê vê uma cadeira, um copo ou um objeto qualquer, é sempre um arrebatamento. Porque descobre cores, formas e texturas, todas novas. Tanto faz se é um disco voador ou um abajur – o ineditismo fascina, em essência.

Uma maçaneta pode ser um objeto vivamente instigante, se você tem dois anos e não sabe de onde ela veio, para que serve e por que brilha.

Adulto (ou quase lá), noto que crescer não é uma evolução do existir, mas uma defesa contra a constatação fatal de que se envelhece sem entender. Aí, a gente aprende a dissimular segurança, pertencimento, coerência. Não se deslumbra mais com maçanetas e brinca-se de ser adulto com mais sofisticação e verossimilhança.

Eu disfarço meu estranhamento quando vejo pessoas caminharem apressadas pelas calçadas, munidas de pastas e celulares, absortas em irritações perecíveis. A pressa de chegar sugere uma compreensão quase crível do mundo. Como se todos soubessem aonde vão, no sentido filosófico do destino.

Difícil é dissimular meu estarrecimento quando me percebo entre eles, concentrado em minicertezas emprestadas, "competente", brincando de escritório ininterruptamente. Até ficar chato, muito chato brincar.

Leandro Quintanilha
(
minicertezas@ibest.com.br)