Quase isso
Sempre tive convicção de que me expresso melhor escrevendo. Não fosse norma vigente de boa conduta conversar pessoalmente sobre assuntos importantes, usaria o teclado toda vez que precisasse terminar uma relação, pedir demissão do emprego ou fazer uma grande revelação à família. Organizaria tópicos, construiria metáforas, desdobraria-me numa prodigiosa geografia de vírgulas, pontos e parágrafos. Tudo por escrito.
Tenho certeza de que assim, protegido do semblante discordante do meu interlocutor, meus argumentos ficariam mais claros e elucidativos. A dissertação fluiria livre de interrupções da minha ansiedade ou dos interesses maculados de quem ouve. Ainda que pouco convincente (porque, muitas vezes, não tenho mesmo razão), minha tese seria mais nítida, inteligível.
De fato, não me importa que eventualmente desgostem de mim ou das minhas opiniões mais impertinentes. Mas me irrita a possibilidade de que porventura se sintam ofendidos, desrespeitados ou mesmo traídos ao me entenderem mal. Ou melhor (ou pior): quando me expresso mal.
É isso, mas não é bem isso. Digo que me prefiro escrito a falado, mas, também no clac-clac de dedos e teclas, percebo-me vez ou outra diante do desnível (ia dizer ‘abismo’ e soou como exagero...) entre o que desejo dizer e o que acabo expressando.
No começo da faculdade, comecei a escrever meu primeiro romance. Desisti na página 30, por ‘falta de vocabulário’. Não podia lidar com a frustração de que o livro era infinitamente melhor na minha cabeça que no papel. Como no discurso oral, não consegui expressar exatamente o que pretendia. E lidar com a precariedade das palavras é encarar a própria impotência diante do mundo. Ah, nunca retomei o tal romance.
Tenho percebido, contudo, que a dificuldade de textualizar pensamentos e emoções tende a diminuir com o tempo. Vai-se ficando mais sensível à sutileza das coisas e dos estados das coisas. Ou algo parecido com isso. Ainda assim, tudo o que falo e escrevo (segredo nosso, tá?) vira uma versão fosca, empobrecida e, às vezes, um tanto caricata do que era para ser dito.
Mas entendo (e um dia talvez aceite) que possivelmente nunca diga palavra por palavra do que desejo expressar e jamais me entendam rigorosamente como fora planejado. Porque a lapidação das idéias é, em si, íntima, subjetiva e fantasiosa.
Só me assombra o mistério: aonde vão parar as palavras que vivo e não consigo verbalizar? Ou não ouso. Ou digo em frases truncadas. Ou falo por meio de construções lingüísticas tão desconexas que subvertem a pretensa honestidade do original. Aonde, ãh?
O que penso, falo e não consigo dizer se dissipa no discreto instante de silêncio em que eu e você nos tornamos incomunicáveis.
Leandro Quintanilha
(minicertezas@ibest.com.br)
