Minicertezas

Wednesday, June 14, 2006

Da minha conta

Fiz o cálculo. Se eu viver até os 80 anos, o que pode ser considerado um bom índice de longevidade, já terei gasto (aproveitado? desperdiçado?) 32% da minha existência. Quase um terço, aos 26, veja só. E pensar que nem gosto de olhar as horas quando estou atrasado...

O pior é que nem sei bem o que espero dos 68% restantes: o que quero da vida está para xis. Mais assombrosa ainda é idéia de posso nem viver tudo isso. Ou posso viver mais, vai. Bem mais. Há alguns meses, li uma entrevista de um cientista gringo/maluco que afirmava: confirmados todos os avanços científicos em andamento, quem tem hoje menos de 60 anos poderia chegar aos mil.

Isso mesmo: mil anos de idade, numa mesma encarnação. Imagino eu que, durante esse milênio de longevidade, novos tratamentos ainda mais surpeendentes viriam à tona - seria a morte da morte.

Mas, tá, ainda é cedo para acreditar no doutor eternidade aí. Pode ser que eu dê o braço a torcer no meu aniversário de 500 anos (desde que, claro, uma virtual artrite o permita). De volta à Terra, 80 anos são hoje uma estimativa razoável, otimista-realista. 80, então. Bem, 54 a partir daqui.

O saldo é que, enquanto a gente se prepara, se decide, busca coragem... o tempo vai passando. Um dia você faz uma regrinha de três e, que susto, já se foram 32%.


Até aqui, sendo otimista-realista, eu só fiz uns 10% das coisas bacanas que pretendia. Estou com déficit de vida. De 22%. Matemática é uma ciência desumana... Mas e você: se 80 anos é tudo o que vai viver, o que se passou até agora está para quanto? Desculpa perguntar.

Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)

Sunday, May 21, 2006

Crimes do tédio

A primeira vez que soube sobre o boato foi justo ao ler, na internet, uma matéria que o desmentia. O texto da jornalista alertava o leitor para que não se deixasse assustar por e-mails urgentes, com seus pontos de exclamação e suas ordens em caixa alta para que fôssemos todos para casa. O crime organizado havia instaurado um toque de recolher à luz do dia. Hum-rum.

Lembro que li a reprodução do boato ligeiramente desapontado com a impossibilidade de acreditar. O texto era ruim. Mas não um ruim contextual, um ruim que dissimulasse pressa e medo, como convinha. Era um ruim exagerado, apelativo, desses que não escondem direito o desejo de manipular.

Mas tolo fui eu. Que menosprezei o desejo coletivo de se deixar enganar. Era segunda-feira à tarde, poxa. Todo mundo queria colaborar... E, assim, o tédio organizado cancelou os expedientes, interrompeu tudo que havia de inadiável e entupiu as ruas de carros. Diziam que era medo. Eu, que ainda não aprendi a brincar de adulto, nem me dei ao trabalho de me assustar. Sabe que até pensei em ir ao cinema?

Achei que seria alienação demais. Em minha defesa, preciso dizer que os noticiários e a ficção banalizaram as catástrofes. Era segunda-feira à tarde e, ah, um cineminha cairia tão bem. Quando teríamos essa oportunidade outra vez?

Não, não tive coragem de assumir meu hedonismo infanto-juvenil em plena guerra civil (naquela altura, todo exagero era permitido) e decidi que seria socialmente mais aceitável locar um filme, o que poderia ser feito com discrição. No mais, os cinemas também fechariam logo-logo.

Ao menos, eu compraria beirutes! Eu e meus mecanismos de autocompensação... De matar a fome eu tinha direito, certo? Só que, pertinho de casa, desisti também de passar na locadora. Foi acometido por aquela vergonha que de vez em quando a gente sente do que a gente mesmo vai pensar.

Mesmo imune ao pânico, achando aquela intensidade revigorante, não dava para ignorar o fato de que o pretexto daquilo tudo era sério e triste.

Consciência inútil: fui agraciado com um telejornal que era um filme de ação dos bons. Vi comendo beirute. Não me julgue: era uma forma de estocar calorias, vai. E a cidade inteira era minha cúmplice.


Presos rebelados podem ser muito perigosos; o tédio, também.

Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)

Tuesday, May 02, 2006

O tempo certo

Começou com uma dorzinha que ficou pior e me fez ficar no hospital uma tarde inteira. Duas vezes. Diagnóstico: gastrite nervosa. O médico disse que era de fundo emocional e, aí, mencionou a palavrinha mágica: ansiedade. Até então meus dias estavam uma loucura, cheios de prazos apertados no trabalho, textos da faculdade por ler, dúvidas de alunos para pesquisar, tudo acumulado na agenda - e na cabeça.

Foi então que passei a olhar de perto os pequenos detalhes do dia-a-dia. No ônibus, sofro porque o relógio corre contra mim. Na rua, os passos são quase uma marcha atlética. Escovo os dentes andando pela casa, ao mesmo tempo em que arrumo as almofadas do sofá ou dou uma olhada nos e-mails. Faço uma coisa já pensando na seguinte.

Sempre ele, o tempo, que corre mais do que a gente. As horas ameaçam faltar, prometem uma catástrofe todos os dias, mas no final ela nunca acontece. Parece mágica. Ufa!

Fico pensando se os compromissos nos provocam ansiedade ou se nós é que damos às tarefas uma aura de aflição. Naquela tarde que passei no hospital, ignorei todos os prazos do trabalho, não entreguei nada. Também faltei a aula em que decidiríamos os grupos de seminário. E para tudo eu dei um jeito depois. Se é assim, por que nos preocupamos tanto?

Parece bobo, mas o que fazemos desse jeito, aflitos pela pressão do tempo, são pedacinhos de morte. Lapsos - duradouros às vezes - em que perdemos a perspectiva de que se está vivendo enquanto o dia passa. Desvinculamos essas horas de nossa própria existência, paramos de sentir o que acontece em cada minuto e encaramos tudo como tarefas a cumprir para depois ficar livre. E vivemos dos minutinhos que sobram.

E nesta lista de obrigações diárias, transformamos o que nos dá prazer em mais um item a ser cumprido. Costumo ler os textos da faculdade em no máximo uma hora. Bem rapidinho antes de sair de casa. Um professor comentou que conhece uma pessoa que passou os últimos 14 anos lendo um único parágrafo. Ela tem mais tempo livre? Não. Só esqueceu essa história de tempo: esse tempo que a gente economiza ou gasta, que passa rápido ou demora a passar, esse tempo inventado pelo relógio. Adaptou-se como pôde, resistiu e aprendeu a viver sem ele.

Para mim, ainda não dá. Mas vou por partes. Meus dias continuam apertados, cheios de prazos e trabalhos, mas, a partir de agora, eles se acumulam só na agenda.



Patrícia Pereira

(minicertezas@ibest.com.br)

Sunday, April 23, 2006

Por fazer

A minha barba rala já havia completado seu segundo milímetro quando começou o feriado prolongado. Justo quando a última limpeza do apartamento fazia seu aniversário semanal. No blog, uma crônica antiga ostentava os mesmos dois comentários há uns quinze dias. O passado e o seu rastro.

No meu guarda-roupa, havia uma pilha de camisetas deixadas para depois. Depois variados. Lavo depois, passo depois, dôo aos mais pobres depois, penduro no cabide depois. Armários e dispensas são o inconsciente do lar – quando acha que está “sem tempo”, a gente põe o entulho para dentro e fecha porta.

A semana terminou, mais curta, deixando suas pendências - móveis empoeirados e barba por fazer. E eu me tranquei do lado de fora, como se não fosse comigo. Mas era. O desleixo é uma liberdade precária, corroída devagarinho pelo desânimo. Fui me cansando do cansaço, sabe?

Feriados prolongados nos destituem da velha desculpa de não ter tempo. Porque não ter tempo é um eufemismo para não ter saco. Na maior parte do tempo, vai. Bem, eu fiz a barba – e não é que fico melhor mesmo de cara lisa?

Arrumei o guarda-roupa, lavei a louça, passei uma vassoura no chão. Aí, com a casa arrumada e limpa, a gente resolveu convidar os amigos. No dia seguinte, fomos ao parque. Eu até andei de patins!

Agora, cá estou. Escrevendo a crônica, enfim.

Bem, a minha teoria é que pequenos cuidados fazem diferença. A gente começa a ser feliz lavando a louça. Vou tentar me lembrar disso de manhã, quando, na correria do atraso sonolento, eu cogitar deixar para fazer a barba só no dia seguinte.

Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)

Monday, April 10, 2006

Temas para a vida

Cada um tem seu acervo pessoal de temas. Causas. É preciso alguma intimidade com alguém para se conhecer suas grandes questões. Ou pequenas, importantes.

Os meus temas de cabeceira, todos, já renderam crônicas. Por isso, quando me flagro sem idéias para textos, estou, ao mesmo tempo, sem grandes causas (ou pequenas, razoáveis) para a vida. Inéditas, ao menos.

Eis os meus teminhas de sempre: a ditadura do trabalho, o ócio criativo e afins; o mito do amor romântico, autonomia emocional e afins; desafios do convívio social, a tirania da maioria e afins; entrelinhas comportamentais, padrões psicológicos, mecanismos de compensação e afins.

Pronto, esgotei-me.

Os 'afins' são ótimos para falar mais ou menos a mesma coisa sem me sentir tão repetitivo.

E, ah, claro, um dos temas mais recorrentes dos meus textos acaba sendo... a minha vida. Bem, não chega a ser um tema (embora seja uma causa - uma boa causa, vai), mas um meio de se falar sobre os meus assuntinhos. Uma deixa. Isso, cronicamente, a minha vida é uma deixa.

As teses de cada um são um meio de contato com o mundo e com o outro. Chamamos uma causa em comum de afinidade - ainda que seja apertar o tubo de creme dental por baixo. Só que, quanto mais importante a tese compartilhada, maior a identificação. Eu votei contra a posse de armas no plebiscito, e você?

Bobagem se exaltar: algumas discordâncias são perecíveis. É uma delícia quando nos identificamos com um tema que até então não era nosso. Nada mais sedutor que um bom argumento - você expande seu acervo de causas, se renova e estabelece uma nova sintonia com alguém.

Melhor que isso só quando é você o 'transmissor' da tese. Contato estabelecido ativamente. Por isso, tanta gente fica obcecada em provar que está certa. Rota de fuga da solidão.

Mas ansiedade só atrapalha. Se a identificação não é espontânea, besteira falar mais alto. Só restam duas estratégias, bem mais interessantes até: a persuasão e a conquista.

Leandro Quintanilha

(leandroq@gmail.com)

Friday, March 31, 2006

Pequenas causas

Os parisienses protestavam contra a publicidade no metrô. Passeata, faixas, gritos de combate, tal como nos manifestamos aqui por aumento de salário ou contra a corrupção. Fiquei com um sentimento dúbio, de admiração e revolta. Puxa, que sociedade sofisticada. Sem grandes tragédias sociais, resta brigar contra sutilezas de imperfeição.

Sim, a vida pode ficar melhor sem os cartazes do McDonald's. É mesmo lindo o minimalismo das paredes nuas. Especialmente no metrô, roteiro de ida e volta de todos os dias. Poluição visual é poluição do cotidiano. Da vida.

Mas, ei, e o resto do mundo? Que tal uma manifestação contra o trabalho infantil na América do Sul? A mutilação feminina na África. Ora, o metrô de Paris é um dos melhores do mundo.

Há de se estabelecer prioridades.

Por outro lado, oui, eu apoio o direito de se protestar por pequenas causas. O detalhe pode comprometer o todo, repare. Que fique registrado, por exemplo, o meu protesto contra pessoas que fumam na escada rolante. Horrível. O resto do refrigerante que não enche um copo. Protesto contra o sinal de telefone ocupado. E também contra quem inadvertidamente me telefona quando eu estou ocupado.

Convoco as pessoas para irem às ruas, caminhando e cantando, contra a rinite. Os plantões de fim de semana. O ônibus que demora a passar. Contra os créditos do celular que acabam antes que se ouça o recado. Protesto contra as diferenças culturais dos dois ou três beijinhos - fico confuso.

O gelo seco: quem inventou que é bacana? Chegar uma hora antes do embarque, tenho mais o que fazer. Protesto contra entrar à noite no hotel e a diária vencer ao meio-dia. Contra o controle remoto do vídeo que muda o canal da tevê. Protesto! Legendas brancas, que somem sempre que há uma parede clara nos cenário. Derrr.. Ninguém pensou nisso?

Pensando melhor, nada de sentimentos dúbios. Os parisienses são geniais. Para eles, meus sinceros votos de paz, amor e fita adesiva que não descola.

Leandro Quintanilha
(leandroq@gmail.com)

Tuesday, March 14, 2006

Piloto problemático

Era como se meu corpo já conhecesse todos os caminhos e fizesse tudo sozinho, sem mim. O corpo ia para o trabalho mais ou menos ao meio-dia e ficava lá até começar o Jornal Nacional. Piloto automático é quase a mesma coisa que piloto ausente, não? Pois é, eu era o piloto automático, ausente, piloto nenhum.

O corpo cuidava do trajeto, solitário. Eu o atrasava com meus dramas vez ou outra, mas, na maior parte do tempo, ele seguia pontual e independente.

Eu estava cansado da rotina. Cansado de ser piloto nenhum de um corpo atarefado. Até que, de repente, me demitiram. O corpo, coitado, ficou sem saber para onde ir. Eu ensaiei alguma solidariedade, mas ri por dentro. E por fora, usando-o, feliz por assumir o controle.

A partir de então, ele me levaria aonde eu quisesse. Nada de itinerários habituais.

Decidi que trabalharia em casa, mesmo que o corpo às vezes teimasse em seguir em direção à porta. Tudo bem, porque o novo estilo de vida requeria mesmo uma série de iniciativas, contatos.

E lá fomos, o corpo e eu, fazer tudo o que era necessário. Enquanto corríamos de um lado para o outro, checávamos e-mail compulsivamente, escutávamos campainhas telefônicas imaginárias, que surpresa - tudo o que eu queria era saber logo se nosso empenho daria certo.

Tá, eu queria uma rotina. Uma vida para chamar de minha. Um mínimo de previsibilidade.

Aos poucos, isso começou a acontecer. Trabalho depois de trabalho, como se tivessem sido encadeados seqüencialmente. Que bom para a contabilidade. Enfim, uma rotina. No melhor sentido da palavra (existe um!). Eu acordava e sabia o que tinha de fazer. Sem ser levado nem ter de inventar destinos.

Até que surgiu uma proposta de trabalho fixo... E cá estou novamente sem saber como a minha vida vai ser. Em algumas semanas, as coisas se organizam, eu sei, mas como eu organizo os meus pensamentos até lá?

Difícil aceitar pendências quando se tem pressa de viver para valer. Como se houvesse um "de vez".

A rotina é a morada da existência. Um lar para descansar a alma e a atenção. Eu me sinto desabrigado agora. Percebi que sou um nômade esporádico. Estrategista. Por hora, quero pegar carona no meu corpo, só mais um pouquinho, outra vez.

Leandro Quintanilha


(leandroq@gmail.com)